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terça-feira, 12 de maio de 2009

Líder do Hamas aceita solução temporária de dois Estados nas fronteiras pré-1967

Frase de Khaled Meshal, líder do Hamas, em entrevista ao New York Times: “Nós estamos com um Estado nas fronteiras pré-1967, baseado em uma trégua de longo prazo. Isso incluiria Jerusalém Oriental, o desmantelamento dos assentamentos e direito de retorno dos refugiados”. A trégua seria de dez anos. Pinçado do blog Diário do Oriente Médio, do jornalista Gustavio Chacra.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Papa deveria abrir arquivos da 2ª Guerra e cobrar justiça para palestinos

A visita do Papa Bento XVI ao Oriente Médio, em especial a Israel e aos territórios palestinos ocupados pelo exército israelense, pode terminar sem acrescentar muita coisa ao panorama local. Se assumisse um compromisso de transparência e de coragem, no entanto, o Papa poderia colaborar para a pavimentação de um caminho que levasse a solução do conflito.

Em Março de 2000, João Paulo II preparou o caminho da reconciliação e visitou Israel. Apresentou desculpas por séculos de difamação e de perseguição perpetrada pela igreja e pelos cristãos (ou com a sua cumplicidade ativa ou passiva). Este passo foi importante e necessário. No entanto, como disse o acadêmico suíço Tariq Said Ramadan, “o que tanto a comunidade internacional como o Oriente Médio precisam é de um Papa que avance um passo para além da expressão de desculpas para assumir a responsabilidade”.

Seria muito importante que Bento XVI se comprometesse em abrir os arquivos do Vaticano, dando mais transparência ao passado e assumindo uma postura de autocrítica quanto à política da Igreja Católica para com os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Da mesma forma, o Papa deveria deixar claro que os direitos de todos os crentes devem ser igualmente respeitados. Judeus, cristãos e muçulmanos devem ter o mesmo direito de praticar a sua religião e igualdade de acesso aos lugares santos.

Ao ser omisso quanto a esta questão, o Papa, e muitos cristãos ao redor do mundo, confirmam a idéia de que há um antagonismo judeu-muçulmano, transformando uma questão política em um conflito entre duas religiões.

Além disso, precisamos que o Papa seja coerente com os valores cristãos e que fale a verdade: como chefe da Igreja Católica, ele tem um dever moral de estar do lado dos pobres e oprimidos. Os palestinos são os oprimidos, que estão sofrendo sob um intolerável bloqueio em Gaza.”, afirma Ramadan.

Seria de bom tom se o Papa lembre ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (cujo partido não reconhece o Estado palestino) e ao seu ministro das relações estrangeiros, Avigdor Lieberman que não haverá paz sem justiça e que o sangue dos palestinos tem o mesmo valor que o dos israelenses.

O silêncio sobre esta questão seria, implicitamente, apoiar Israel: numa época de repressão, evitar a política, é política.”, conclui Ramadan.

Papa visita Israel e imprensa palestina é impedida de trabalhar

Foto: Reuters
O Papa Bento XVI desembarcou em Tel-Aviv na manhã desta segunda-feira, iniciando uma visita de cinco dias a Israel e aos territórios palestinos, definida pelo Vaticano como "peregrinação pela paz".

Uma das primeiras ações do esquema de segurança israelense foi o de fechar o centro de imprensa instalado pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Jerusalém Oriental. Segundo a Agência Efe, no começo da manhã "policiais armados entraram no Hotel Ambassador (no bairro de Sheikh Jarrah e onde se tinha instalado o escritório) levaram documentos e material, e ordenaram o seu fechamento".

Questionado pela imprensa, o porta-voz da Polícia israelense, Miki Rosenfeld, disse que o Ministério de Segurança Interna de Israel "tem autoridade para encerrar qualquer evento" organizado pela Autoridade Nacional Palestina (ANP) em Jerusalém.

É a democracia israelense em ação.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quem vaia Ahmadinejad aplaudiria Lieberman?

No dia 20 de abril publiquei uma pequena reflexão intitulada Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?”, onde argüia meus dois ou três leitores sobre a celeuma provocada pelo discurso do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad durante a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância (Durban 2), realizada mês passado em Genebra, Suíça.

Na oportunidade, afirmei: “Pode-se discordar de suas afirmações, mas não há nelas nenhuma agressão odiosa a Israel ou ao judaísmo, como querem fazer crer o governo de Barack Obama e seus prepostos no Oriente Médio”.

Na segunda-feira, 6, o professor e blogueiro Idelber Avelar fez em seu blog um belo resumo desta ópera bufa. No artigo “A histeria da direita com a visita de Ahmadinejad”, ele aponta estes pesos e medidas diferenciadas que sustentaram o discurso de quem se mostrou “horrorizado” com o anúncio da visita de Ahmadinejad ao Brasil (cancelada pouco depois). Avelar mostra também que é preciso ter muito cuidado com o que se lê na imprensa ocidental quando o assunto é delicado para os donos do poder.

Quando você vir alguém dessa turminha dizendo que Ahmadinejad propõe a exterminação dos judeus, faça algo muito simples: peça o link. Pergunte qual é a fonte. Pergunte quem traduziu o texto do persa. Porque o líder iraniano jamais disse isso. O que ele disse foi: ‘o regime que ocupa Jerusalém (een rezhim-e ishghalgar-e qods) deve ser apagado da página do tempo (bayad az safheh-ye ruzgar mahv shavad).’ A tradução é de um dos maiores especialistas em Oriente Médio da contemporaneidade, Juan Cole, confirmada por dois outros tradutores do persa. Leia a entrevista de Ahmadinejad e confira você mesmo. Sobrando um tempinho, assista ao vídeo da palestra de Ahmadinejad em Columbia University, cujo presidente o recebeu com uma grosseria que até hoje envergonha a nós, acadêmicos americanos.

A guerrilha de palavras que se seguiu ao pronunciamento na Suíça se espalhou pela mídia, propagando a estratégia israelense de desconstruir o discurso e a imagem dos seus adversários políticos. Esta estratégia não é novidade e se baseia em uma mácula no inconsciente coletivo ocidental que faz com que toda e qualquer crítica às políticas israelenses seja classificada como anti-semitismo.

Esta mácula se espalhou de forma tão consistente que afeta até mesmo àqueles que defendem uma postura de questionamento – e até mesmo de reprovação – sobre a conduta de Israel para com os palestinos. O jornalista Gustavo Chacra – cujo blog é referência nas questões do Oriente Médio – publicou no dia 21 o post “Ataque racista de Ahmedinejad a Israel prejudica de Obama a palestinos”, no qual se pode perceber claramente o resultado da influência desta política de controle sobre o pensamento e sobre as opiniões.

Em seu post, Chacra reproduz a tradução do discurso de Ahmedinejad, em espanhol, feita pela Agência de Notícias Irna, oficial do governo do Irã, onde fica claro que o presidente iraniano em nenhum momento fez declarações racistas sobre Israel ou os judeus. O que há em seu discurso é uam crítica ferrenha ao sionismo. Ocorre que Chacra – assim como imensa parte da mídia ocidental – não consegue fugir da armadilha que equipara sionismo e semitismo. Este é o ponto fundamental da encruzilhada ideológica que domina o tema, arma os sionistas e desarma os que querem ver judeus e árabes vivendo em paz: a falsa idéia de que não existe judaísmo sem sionismo (veja o artigo “As similaridades entre Sionismo e Nazismo”, postado aqui, ontem).

A descostrução de Ahmadinejad é parte desta estratégia. O presidente do Irã não é flor que se cheire. Em seu país há constantes violações aos direitos humanos. Isso, no entanto, não pode ser usado como argumento para invalidar – ou falsear - qualquer opinião emitida por ele. Esta visão maniqueista é base para todo o tipo de arbitrariedade intelectual e política – como a saída dos delegados europeus de Durban 2 durante o discurso do chefe do executivo iraniano.

Resta saber como se comportariam os mesmos críticos que condenaram o discurso e a presença do presidente iraniano no Brasil no caso de uma visita do ministro de relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, que em seu currículo ostenta a segregação racial em Israel como bandeira, entre outras ignomínias.

Paz emperrada

"Três quartos de palestinos e israelenses são a favor de uma solução de dois Estados para resolver o conflito. Para ser específico, pesquisa da One Voice publicada no Haaretz, de Israel, indica que 74% dos palestinos e 78% dos israelenses aceitariam viver lado a lado em dois países. A pesquisa tem uma margem de erro de 4,1% para os palestinos (pesquisa feita em pessoa) e 4,5% para os israelenses (pesquisa por telefone).

Três quartos de palestinos e israelenses são a favor de uma solução de dois Estados para resolver o conflito. Para ser específico, pesquisa da One Voice publicada no Haaretz, de Israel, indica que 74% dos palestinos e 78% dos israelenses aceitariam viver lado a lado em dois países. A pesquisa tem uma margem de erro de 4,1% para os palestinos (pesquisa feita em pessoa) e 4,5% para os israelenses (pesquisa por telefone).
"

Clique AQUI para ler o excelente artigo de Gustavo Chacra na íntegra.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Israel atacou escolas da ONU. E agora Reinaldo Azevedo?

No dia 4 de fevereiro, Reinaldo Azevedo publicava a seguinte manchete em seu blog: “Não, Israel não atacou a escola da ONU. era uma farsa do Hamas. A ONU foi obrigada a admitir a verdade. Quase um mês depois! Cadê as manchetes?”. Ali, o articulista da Veja esbravejava seu contentamento sobre a notícia de que os ataques de Israel contra escolas na Faixa de Gaza durante a ofensiva de janeiro teria sido falsa.

No texto, a irresponsabilidade de Azevedo chega ao ponto da seguinte afirmação: “Todas, rigorosamente todas as ditas ‘atrocidades’ cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas.”

Na oportunidade ele faz, ainda, a seguinte crítica ao jornalista Marcelo Coelho, da Folha de S.Paulo, que "ousou" condenar sua postura de apoio ao massacre: “O jornalismo dele, não sei para que serve. O meu existe, entre outras razões, para que os freqüentadores deste blog possam ler com mais acuidade o que é noticiado na imprensa.”.

Na verdade o jornalismo de Azevedo existe para inflar o próprio ego e dar voz aos que apóiam a forma como ele enxerga o mundo. Basta dizer que no blog do Azevedo só são aceitos comentários favoráveis aos seus pontos de vista. Precisa falar mais? Precisa.

Ocorre que ontem, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, divulgou um relatório da entidade afirmando que Israel mentiu sobre os ataques a escolas e outras instalações da organização durante a ofensiva. Ban disse que uma investigação da ONU provou que armas israelenses - algumas contendo fósforo branco - foram a "causa indiscutível" da destruição de várias escolas, de uma clínica médica e da sede da entidade mundial em Gaza. Um dos ataques teria matado mais de 40 pessoas.

O Comitê da ONU Contra a Tortura denunciou também a existência em Israel de um centro de detenção secreto e sua utilização pelos serviços secretos israelenses para realizar interrogatórios. A chamada “instalação 1391”, situada em “um local indeterminado de Israel e inacessível para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha”, foi alvo de uma das acusações apresentadas pelos especialistas do comitê, reunidos em Genebra.

E agora Reinaldo, cadê as manchetes?

As similaridades entre Sionismo e Nazismo

Um câncer vem se alastrando e corroendo os alicerces do debate sobre as políticas israelenses no Oriente Médio, em especial sobre sua postura em relação aos palestinos. Este câncer tem como objetivo destruir a fundamentação de qualquer argumento que contenha em seu bojo uma crítica a esta postura, classificando estes argumentos, sejam eles quais forem, como anti-semitas. Nos estágios mais avançados desta doença, a mais simples menção crítica a Israel é classificada como um ataque direto ao judaísmo, como uma atitude calcada na reafirmação do nazismo, como uma apologia ao anti-semitismo.

Este mal se alastrou de tal forma que até mesmo gente mais antenada com a questão refreia a língua na tentativa de ser “politicamente correto” e se adequar ao que convencionou-se como postura adequada na tratativa de assuntos que espetem Israel em suas feridas mais purulentas.

Dois temas são particularmente evitados: críticas ao sionismo e comparações entre este pensamento e o nazismo. Durante a última ofensiva israelense sobre a Faixa de Gaza, alguns levantaram a lebre, apontando as similaridades entre sionistas e nazistas. Prontamente seus argumentos foram condenados publicamente, não por falta de base, mas com a intenção correlacioná-los ao rol das idéias anti-semitas.

Este receio é a mola mestra das políticas israelenses de domínio sobre os palestinos. É a partir dela que os sionistas tomam a dianteira neste conflito, condenando os palestinos a uma existência a margem da civilização e entregando-os de bandeja para o fundamentalismo islâmico. Esta estratégia do quanto pior melhor, na qual Israel alimenta o ódio e a divisão entre os palestinos para justificar a ocupação ilegal da Cisjordânia, de parte de Jerusalém e do cerco à Faixa de Gaza, é a estratégia sionista para alcançar o objetivo final: a manutenção de todo o território onde hoje se encontra Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza sob o domínio do povo judeu e somente dele. O sionismo não prevê dois povos naquela região e isso já foi claramente explicitado por diversos políticos israelenses, entre eles o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro das relações exteriores, Avigdor Lieberman.

No entanto, não se pode condenar judeus ou israelenses por isso. Nem todos são adeptos declarados do sionismo. Muitos querem apenas (e tem todo o direito) de viver em segurança em sua pátria. Portanto, é preciso diferenciar claramente judaísmo e sionismo.

Penso que o judaísmo, como qualquer outra religião, deve ser respeitado e seus seguidores devem ter garantido o direito de professar sua fé. O sionismo, por outro lado, não é uma religião, mas um pensamento que se utiliza de um pilar religioso para alcançar objetivos políticos. Ora, sendo uma linha política, o sionismo é passível de controvérsias no campo ideológico. Haverá quem o defenda e quem o combata. E isso, de forma alguma, sigifica defender ou combater o judaísmo. É preciso separar as questões. Judaísmo é uma religião e seus praticante devem ser protegidos de quaisquer ações repressoras, racistas ou difamadoras. Sionismo é linha política, e como tal é passível de contestação.

Não podemos, então, aceitar a auto-censura que o lobby sionista tenta impor ao mundo, em especial quando elege assuntos proibidos, temas tabus.

SIONISMO E NAZISMO

Portanto, tracemos um paralelo entre o sionismo e o nazismo. Isso é possível? Vejamos. Quanto a seus objetivos, o sionismo preconiza a preservação e prosperidade do povo judeu, afastando a possibilidade de seu extermínio ou assimilação. Os nazistas, por sua vez, lutavam pela preservação e prosperidade da raça ariana, afastando a possibilidade de miscigenação com outras raças.

Para o sionismo, o Estado não é um fim, mas um meio para alcançar os seus objetivos. "Após nos tornarmos uma força poderosa, como resultado da criação do estado, nós aboliremos a partilha e nos expandiremos para toda a Palestina. (...) O estado será apenas um estágio na realização do sionismo e sua tarefa é preparar a base para nossa expansão por toda a Palestina", Ben Gurion, citado por Noam Chomsky, The Fateful Triangle: The United States, Israel and the Palestinians, Pluto Press, London, 1999.

Estado e Democracia

Da mesma forma, para os nazistas o Estado não era um fim, mas um meio para alcançar os seus objetivos. "Em geral, não se deve esquecer que a finalidade suprema da razão de ser dos homens não reside na manutenção de um Estado ou de um governo; sua missão é conservar a raça. E se esta mesma se achar em perigo de ser oprimida ou até eliminada, a questão da legalidade passa a plano secundário", Adolf Hitler, Minha Luta, cap. III.

Outro paralelo pode ser traçado sobre o conceito de democracia. A mídia sionista tem apresentado o Estado de Israel como a única democracia do Oriente Médio. Seria verdade se for considerado como democracia um sistema que privilegia grupos de cidadãos em relação a outros, como, por exemplo, a antiga democracia ateniense restrita aos eupátridas, a democracia branca sul-africana da época do apartheid e a estadunidense antes dos anos 60. A "democracia" sionista exige de antemão que os cidadãos não judeus reconheçam o Estado de Israel como sendo um estado judeu, ou seja, que reconheçam a si mesmos como cidadãos de segunda categoria. Isso implica em aceitar a "lei do retorno" a qual concede a qualquer judeu do mundo (que é assim reconhecido segundo as normas do judaísmo ortodoxo), independentemente de onde tenha nascido, o direito à cidadania israelense.

Em outras palavras, todos os milhões de judeus do mundo (que somam muito mais que a população judia do próprio Estado de Israel) podem tornar-se eleitores em caso de necessidade. É assim intolerável para o Sionismo a existência de uma maioria não-judia no Estado de Israel, exceto se dominada e submetida como eram os negros pelos brancos cristãos e judeus durante a vigência do apartheid sul-africano. O projeto original de Theodor Herzl era o de um estado administrado como uma empresa com um comando centralizado e restrito a judeus. Herzl, em sua obra O Estado Judeu, explicitamente rejeitou o sistema democrático para o Estado de Israel.

Ao contrário dos sionistas, que estabeleceram uma democracia de casta, os nazistas foram assumidamente antidemocratas ou, no dizer de Adolf Hitler, defendiam a "genuína democracia germânica de livre eleição do Führer, que se obriga a assumir toda a responsabilidade por seus atos". O sistema nazista baseava-se no militar, em que o líder tem todo o poder de decisão e comando em relação a seus subordinados e assume os méritos dos alvos alcançados e todas as responsabilidades pelos fracassos. Para o Nazismo só deve governar quem for capaz de arriscar sua própria vida para garantir sua posição de comando. A democracia para o Nazismo é a "ditadura do número", em que os mais simpáticos e não os mais capazes comandam. Para os nazistas, a democracia é um sistema em que os mais espertos e não os mais capazes, corajosos e honestos são os favorecidos.

Portanto, da mesma forma que o Sionismo, o Nazismo vê o Estado como um meio e não como um fim - no que os dois se distinguem do Fascismo, em que a instituição do Estado é posto como o alvo e o único capaz de administrar os conflitos internos. No Nazismo o alvo do Estado é a preservação da raça ariana, considerada ameaçada de destruição pela miscigenação com as demais raças, classificadas como inferiores pelos nazistas; no Sionismo o alvo é a preservação do povo judeu, ameaçado de destruição pelos gentios (os não judeus), seja pelo extermínio físico, seja pela assimilação.

Militarismo e Expansionismo

Outra similaridade entre nazismo e sionismo está no militarismo de sua sociedade. Para manter sua dominação, os sionistas necessitam de um poderoso sistema de dominação militar sobre a maioria palestina muçulmana, cristã e laica, somada a armas de propaganda. O Estado de Israel é o único país do Oriente Médio a ter armamentos nucleares e recebe anualmente dos EUA, além de apoio e proteção militar, bilhões de dólares.

Da mesma forma, uma das bases do Nazismo foi a crença de que o direito nasce da força e que a própria força já prova a quem pertence o direito de dominar: quem se deixa escravizar merece ser escravizado, defendiam. Os nazistas construíram para isso uma enorme máquina de guerra e o próprio Estado estruturou-se como uma organização militar.

Nazistas e sionistas compartilham a mesma estratégia expansionista. O ideal dos sionistas é refazer os limites que, segundo o Judaísmo, a Torá estabelece para o povo judeu viver. Esses limites hoje implicariam em tomar territórios que vão do Egito ao Iraque. Guerras expansionistas já foram empreendidas com este fim. Os nazistas, por sua vez, eram essencialmente expansionistas e defendiam que a segurança do Estado é tanto maior quanto for seu território. Como no Nazismo não há lugar para escrúpulos no que se refere a acumular poder.

Racismo: Semitismo e Arianismo

O Sionismo, como o Nazismo, defende que os judeus são uma raça. Embora os sionistas costumem declarar que o Sionismo seja um movimento não-religioso, o Judaísmo aceitar pessoas de todas as raças e terem os hebreus e os judeus durante sua história se miscigenado com muitas raças, isso pode estar ligado às crenças cabalísticas (a mística desenvolvida no Judaísmo da diáspora) de que os judeus possuem uma alma adicional, ao contrário dos gentios que só possuiriam uma alma animal e a outras tradições racistas - que não são aceitas por todos os judeus.

Jabotinsky, um líder de extrema-direita, defendia a superioridade racial do semita em relação aos demais povos do Oriente Médio. A luta contra o "anti-semitismo" é também, para alguns sionistas, uma luta de preservação racial. Em 1975, a Resolução 3379 Assembléia Geral das Nações Unidas classificou o Sionismo como racismo, entre outros motivos pelo forte apoio sionista ao apartheid sul-africano. Esta resolução, porém, foi revogada em 1991, por pressão dos EUA onde os sionistas têm forte presença meio à maior população judia do mundo e junto a várias igrejas cristãs que acreditam no direito judeu à Palestina.

Os nazistas acreditavam na superioridade racial ariana em relação às demais raças. Defendiam que entre os povos germânicos a raça ariana foi mais preservada da miscigenação com as "raças inferiores" do que em outras populações arianas da Europa e do mundo. Afirmavam que a superioridade da raça ariana manifesta-se nas várias civilizações que teriam criado no mundo antigo e no progresso científico e intelectual que as civilizações arianas conseguiram no mundo moderno.

O fato de os povos germânicos terem permanecido num estado próprio das sociedades pré-históricas até entrarem em contato com povos como os romanos e os semitas árabes e seu pouco progresso científico se comparado a povos ameríndios como os incas, maias e astecas, é justificado apelando-se para argumentos como as condições geográficas onde esses povos teriam vivido. O Nazismo propõe-se exatamente a impedir que a miscigenação do ariano continue a se dar, e vê nos judeus agentes interessados em promover essa "degradação" da única raça que, segundo acreditam, poderia impedi-los de dominar o mundo.

Limpeza étnica

Uma das bases do Sionismo é a crença de que judeus e gentios não podem viver em paz. Isso justifica para eles a expulsão sumária de não judeus. Golda Meir assim se expressou sobre isso: "Nós devemos perguntar a nós mesmos: 'Que tipo de Israel nós desejamos?' Eu digo: um Israel judeu, sem interrogações ou dúvidas. Um Israel judeu, sem o medo diário [de saber] se a minoria constitui agora cinco por cento ou não", citado em Davar, 6 de junho de 1969.

A propaganda sionista dissimula esse desprezo e xenofobia disfarçando-o como "valorização da diversidade" e estimulando outras sociedades a dividirem-se e isolarem-se em etnias.

Para o Nazismo todas as demais raças ameaçam a raça ariana, em especial pela miscigenação. O Estado deve garantir a homogeneidade da população: "(...) A organização de uma comunidade de seres moral e fisicamente homogêneos, com o objetivo de melhorar as condições de conservação de sua raça e assim cumprir a missão com que esta foi assinalada pela Providência. Esta e não outra coisa significam a finalidade e a razão de ser de um Estado", Hitler, MInha Luta, Cap. IV.

E então...?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Israel volta a negar compromisso com criação de Estado palestino

A visita do ministro de relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, a Europa, começou mal. Ontem, durante reunião com o ministro das relações exteriores da Itália, Franco Frattini, Lierberman - que é conhecido por suas declarações racistas e que lidera o partido de extrema direita Yisrael Beitenu (Israel é nossa casa) - se negou mais uma vez a endossar a idéia de um Estado Palestino, como tem defendido os Estados Unidos e a União Européia.

Lierberman disse que o incremento das relações entre Israel e a União Européia não deve ser “relacionado aos demais problemas do Oriente Médio”. Este incremento, motivo da primeira visita oficial do ministro israelense ao velho mundo, daria a Israel mais acesso aos mercados europeus e ampliaria a cooperação em áreas como energia, meio ambiente, combate ao crime e ao terrorismo e educação. A afirmação de Lierberman foi uma resposta a Benita Ferrero-Waldner, comissaria de relações exteriores da União Européia, que na semana passada criticou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por sua negativa em endossar a criação de um Estado palestino. A resposta oficial de Israel foi de que este tipo de crítica poderia prejudicar avanços no processo de paz.

A posição adotada por Lieberman não é surpresa. Em seu primeiro pronunciamento como ministro, ele já havia deixado claro que, em sua opinião, concessões aos palestinos significavam apenas guerra. Tão pouco é surpresa o posicionamento do Governo de Israel, que jamais aceitou críticas sobre sua postura em relação à questão palestina ou mesmo às resoluções das Nações Unidas sobre o tema.

Na contramão das declarações de Lieberman e Netanyahu, o ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, afirmou que o primeiro ministro de seu país levará aos Estados Unidos um plano baseado na criação de dois Estados para resolver o conflito do Oriente Médio. Netanyahu, que deve viajar no final de maio a Washington, onde se reunirá com o presidente Barack Obama, não comentou a afirmação de Ehud Barak ao jornal Haaretz, segundo a qual o primeiro-ministro israelense "aceitou os Acordos de Oslo, que estipulavam a criação de um Estado palestino junto ao de Israel”.

O fato é que o governo israelense segue a mesma estratégia de décadas: informações truncadas, iscas lançadas para agradar os peace makers de plantão e, por outro lado, a manutenção das políticas de expansão dos assentamentos na Cisjordânia – em flagrante violação das resoluções 181 e 242 da ONU - e de negação de um Estado palestino autônomo.

A visita de Netanyahu aos estados Unidos será um momento interessante para confirmar este jogo hipócrita bancado por israelenses e estadunidenses. Ou será que Obama vai bater o pé?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Depois da Guerra contra o Terror, sionistas apostam nos herdeiros de Hitler

O texto abaixo é uma análise sobre a palestra de Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele, proferida na terça-feira durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça). A autoria é de Cecilie Surasky, do grupo Jewish Voice for Peace (JVP) e a tradução é minha.

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Isso foi o que um amigo palestino da Cisjordânia me disse, tremendo, depois de duas horas de ódio durante a palestra proferida por Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele: “Eu apenas escutei durante duas horas a demonização dos palestinos e muçulmanos, alimentada por racismo e ódio”.

Eu já havia postado algumas notas sobre Jon-o-novo-Holocausto-Voight, mas o prato principal da palestra - que trataria do anti-semitismo, mas que na verdade tratou-se de uma promoção de anti-arabismo e de ódio aos árabes, palestinos e muçulmanos – era Alan Dershowitz.

Dershowitz é um pavão, muito inteligente e raivoso. Ao observá-lo você se sente como se ele estivesse prestes a explodir. Como todo bom demagogo, ele sabe como atiçar a platéia até os mais calorosos aplausos. Admito, tenho medo dele.

Na era de Obama e da exaustão da Guerra do Iraque, a Guerra ao Terror claramente não provê mais a base que o lobby de Israel precisa para deslegitimar as reivindicações dos palestinos por justiça ou, francamente, apenas por decência. Na palestra, Dershowitz lançou um novo argumento ocupar esta lacuna. Desde algum tempo Netanyahu e sua turma têm se apoiado sobre uma comparação entre Hitler e Ahmedinejad. Mas foi a primeira vez que eu ouvi uma comparação entre palestinos e nazistas (com poucas exceções, é claro, pois Dersh “não gosta de generealizar”). Veja algumas transcrições do vídeo acima:

A dolorosa verdade sobre o Holocausto hoje está sendo suprimida dos campi universitários, ela está sendo suprimida onde quer que o conflito palestino seja discutido. Meu doloroso trabalho hoje é falar sobre uma destas verdades históricas que muitos preferem ver ignorada.

A terrível, terrível, terrível tragédia é que existia uma linha direta entre Hitler e (o Mufti palestino anti-semita) Husseini, assim como há com o Hamas e a Jihad Islâmica. Eles são os herdeiros de Hitler. Ahmedinejad é herdeiro de Hitler. Estes, que têm sido cúmplices deste mal, são cúmplices do nazismo. O nazismo não desapareceu do mundo de hoje. Eles têm os mesmos objetivos genocidas…

Ai de vocês que apóiam o Hamas! Vocês estão apoiando os herdeiros de Hitler. Não importa se você se considera uma pessoa de esquerda ou de centro, você está sendo cúmplice do maior mal do século vinte. E não há como quebrar este vínculo. Enquanto o Hamas mantiver suas atitudes genocidas contra o povo judeu...


Há muito a ser dito sobre esta linha de raciocínio. Em posts futuros.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Vitimização judaica

Por duas horas o ator Jon Voight (pai da atriz Angelina Joli), Alan Dershowitz e outros militantes sionistas tentaram explicar para a audiência que compareceu a sua palestra, ontem, durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça), como o Hamas e o Hezbollah se equiparam aos nazistas; como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad é um clone de Hitler e, finalmente, suas argumentações de que os judeus passam hoje por um novo holocausto.

Presente à palestra, Cecilie Surasky, diretora de comunicação do grupo Jewish Voice for Peace (JVP), fez um paralelo entre este discurso e a “esquizofrenia moral” que domina o imaginário judaico em relação ao auto-estabelecimento de uma condição de “eternos perseguidos”, que os leva a uma incapacidade de enxergar o sofrimento em outros povos, como se isso diminuísse ou invalidasse o seu próprio sofrimento.

A mera menção ao sofrimento dos palestinos lança estas pessoas em paroxismos, deixa-os na defensiva e até com raiva. Eles se agarram à negação do holocausto, mas este fenômeno é resultado de uma mesma patologia. É virtualmente impossível para eles manterem paralelamente a narrativa de seu próprio sofrimento à narrativa do sofrimento palestino. É como se, fazendo isso, eles se quebrariam em duas partes bem diante de nós”, afirmou a ativista.

No artigo “Jewish Humanists Remembered: I.F. STONE (1907-1989)”, publicado na revista eletrônica “Outlook, Humanistic Judaism and Jewish Currents”, o pensador Bennett Muraskin (do mesmo autor, veja também o artigo “Anti-Zionism and Non-Zionism in Jewish Life—Past and Present”), cita as origens desta “esquizofrenia moral”, levantada originalmente pelo jornalista estadunidente de origem judaica I.F. Stone.

Disse Stone em 1967, no artigo "Holy War": "Israel está criando um tipo de esquizofrenia moral no mundo judaico. No mundo lá fora, o bem estar dos judeus depende da manutenção de sociedades pluralistas, seculares e não-raciais. Em Israel, os judeus vêem a si mesmos defendendo uma sociedade cujo ideal é racial e excludente. Os judeus devem lutar em todos os lugares, para a sua segurança, contra os princípios e práticas que eles têm defendido em Israel”.

Trata-se de uma crítica contundente ao sionismo, ao que ele tem de mais horrendo: a defesa de um Estado baseado na questão racial, um Estado que exclui as demais raças e credos. É também, um vislumbre do que viria em seguida, a criação desta mentalidade que coloca o judeu no patamar mais alto do martírio.

Analisando o excelente artigo “Must Jews always see themselves as victims?”, de Antony Lerman, publicado no dia 7 de março no jornal “The Independet” (cuja leitura recomendo veementemente), Judith Norman e Alistair Welch - integrantes do grupo Jewish Peace News - disseram o seguinte:

Antony Lerman, diretor do Institute for Jewish Policy Research, questionou os motivos pelos quais tantos judeus, em Israel e no mundo afora, demonstram uma cegueira para com o sofrimento dos palestinos. A resposta que ele deu - que muitos judeus vêem a si mesmos como vítimas permanentes – não é particularmente nova, mas seu artigo nos dá uma análise lúcida deste senso de vitimização e de seus efeitos sobre a legitimação de políticas que causam grande sofrimento aos palestinos.

Além de muitos judeus verem a si mesmos como vítimas, a natureza deste sofrimento judaico é pensada como algo único, profundo e intenso. O sofrimento judeu é encarado de uma forma quase (ou francamente) religiosa; transcendendo a experiência e de forma irrefutável. Cada incidente de viés anti-semita é observado de forma mais sinistra do que aparenta – um sintoma da epidemia global do ódio aos judeus. Dadas estas razões, é impossível para Israel relevar qualquer sinal de hostilidade por parte dos palestinos, visto que cada ataque palestino é um sintoma de ameaça global que os judeus têm encarado (supostamente) por milênios.

Não é necessário dizer que esta mentalidade tem causado enormes danos, não apenas para os judeus de Israel, que são incapazes (mesmo que queiram) de contextualizar os eventos atuais ou de expressar qualquer demonstração de simpatia para com o sofrimento palestino (Lerman cita evidências empíricas disso), e são, portanto, levados a apoiar uma agenda beligerante que bloqueia qualquer solução para o conflito.

O antídoto que Lerman oferece é um ato básico e corajoso de empatia: não há nada de exclusivo no sofrimento judeu e isso deve ser usado como a chave para entender o sofrimento palestino, e não como justificativa para piorá-lo.
”.

Em seu artigo, Antony Lerman aponta para um sentimento de impunidade justificada que toma conta do imaginário judaico, especialmente, dos judeus israelenses. Uma sensação de que qualquer ação lhes é permissível, justificada pelas perseguições que sofreram no passado.

O artigo cita também uma pesquisa efetuada pelo professor Daniel Bar Tal, da Universidade de Tel Aviv – um dos mais conceituados psicólogos políticos da atualidade – que analisa como os judeus israelenses classificam o conflito árabe-israelense. Sua conclusão foi de que sua "consciência é caracterizada por um sentimento de vitimização, uma mentalidade de cerco, um patriotismo cego, beligerante, um sentimento de desumanização dos palestinos e de insensibilidade para com o seu sofrimento". Os pesquisadores descobriram, também, uma ligação estreita entre a memória coletiva e a memória "das antigas perseguições aos judeus" e do holocausto, “o sentimento de que o mundo inteiro está contra nós”.

Esta mentalidade, que hierarquiza o sofrimento, é a base para a justificativa de todas as ações beligerantes promovidas por Israel, de suas políticas de expansão territorial, de limpeza étnica, de manutenção do domínio e da ocupação ilegal que mantém sobre os territórios palestinos.

Leia Mais sobre este tema:
- Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Jogo de palavras

Vale a pena ler o artigo “Jogos de palavras”, de Gideon Levy, publicado hoje no jornal israelense Haaretz. A tradução é de Caia Fittipaldi para o blog Amálgama. Levy faz uma leitura ácida da hipocrisia que rege o debate sobre a questão palestina no governo israelense.

A sua crítica sobre a estratégia israelense de bater monotonamente na tecla de uma exigência que já é fato – o reconhecimento de Israel – aponta o que de fato há por trás deste discurso: uma intenção inequívoca de manter as coisas como estão na certeza de que no futuro Israel ocupará majoritariamente os territórios tomados dos palestinos.

São questões terríveis. Só quem se dedique a impedir o progresso ocupa-se hoje nesse reconhecimento, que é pura vaidade. Só um país cuja autoconfiança seja muito capenga precisa de que outros reconheçam seu caráter nacional. Passa pela cabeça de alguém que a França exigiria de alguém que a reconhecesse como Estado? Ou a Itália, como Estado italiano? E de quem, afinal, Israel exige reconhecimento? Dos mesmos que há mais de 40 anos gemem sob os coturnos da ocupação… por Israel.”, afirma Levy.

E finaliza: “Parafraseando David Ben-Gurion, é preciso dizer ao presidente dos EUA que não dê atenção ao que os judeus dizem; só dê atenção ao que os judeus fazem.

Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?

Outras leituras sobre o discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, em Genebra (Suíça). O Humans Right Watch e o grupo Jewish Voive for Peace consideraram o pronunciamento “um desastre”.

Ahmadinejad teve sua cota de asneiras, como o questionamento ao Holocausto, mas disse algumas verdades dolorosas. A grande questão surge quando observamos o pavor que gera qualquer possibilidade de confronto com Israel. É como se isso fosse um tabu, um dogma inviolável. Muitos países – inclusive o Irã – agridem diariamente os direitos humanos e deveriam ser alvos de manifestações contundentes. Isso não inocente, no entanto, os crimes de Israel.

Leia Mais sobre este tema:
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
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terça-feira, 21 de abril de 2009

O roto e o maltrapilho

O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, criticou no domingo (19) a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância, que teve início ontem, em Genebra (Suíça). Segundo ele, o evento conta com a participação de líderes "racistas", como o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

"Uma conferência internacional na qual um racista como Ahmadinejad, que defende dia e noite a destruição de Israel, é convidado a palestrar expõe quais são seus objetivos e seu caráter", disse o ministro israelense.

Certo... Ahmadinejad não é exemplo a ser seguido por ninguém. No entanto, quem é Avigdor Lieberman para acusar quem quer que seja de racista?

Líder dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu, Lieberman advoga abertamente o banimento dos árabes-israelenses de Israel. O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cijordânia".

Lieberman é conhecido por suas constantes incitações racistas contra palestinos com ou sem nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, ele impediu a participação de jornalistas árabes. Como o jornal israelense Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, durante recente visita a escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

Idéias que já foram consideradas extremamente racistas para serem legitimamente expressas são agora parte do discurso político em Israel, enquanto outras opiniões são silenciadas. Trata-se de um sério sinal de que a situação em Israel lembra mais e mais a era do apartheid na África do Sul.

E ele fala em racismo...

Leia mais sobre este tema:
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel? 13/04/09
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância? 18/03/09
- A transformação autoritária de Israel 27/02/09
- Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel 18/02/09
- Sob a sombra do fascismo 14/02/09
- Racistas podem comandar o governo em Israel 12/02/09
- Israelenses mantém o caminho da direita 11/02/09
- O que ocorre em Gaza é genocídio? 08/01/09
- Terrorismo de Estado 30/12/08

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?

O discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, realizado hoje durante a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, em Genebra (Suíça), e a reação dos delegados de países membros da União Européia – que deixaram a reunião assim que Ahmadinejad começou a falar, aprofundam a hipocrisia que domina o debate sobre o Oriente Médio.

O que disse Ahmadinejad?

Afirmou que "depois do final da Segunda Guerra Mundial, (os aliados) recorreram à agressão militar para privar de terras a uma nação inteira (os palestinos), sob o pretexto do sofrimento judeu". Disse também que "(os aliados) enviaram imigrantes da Europa, dos Estados Unidos e do mundo do Holocausto para estabelecer um governo racista na Palestina ocupada", fez referências ao "sionismo mundial, que personifica o racismo", e, finalmente, atestou que a ONU "recebeu com o silêncio os crimes desse regime (israelense), como os recentes bombardeios contra civis em Gaza".

Pode-se discordar de suas afirmações, mas não há nelas nenhuma agressão odiosa a Israel ou ao judaísmo, como querem fazer crer o governo de Barack Obama e seus prepostos no Oriente Médio.

Ora, porque o presidente do Irã não pode acusar Israel de adotar políticas racistas contra os palestinos se a própria ONU é humilhada diariamente por Israel ao ver desobedecidas pelo país as suas duas resoluções sobre o conflito na Palestina ocupada; se a União Européia reconhece que Israel está ampliando os assentamentos nos territórios ocupados de forma ilegal para forçar os donos da terra, os palestinos, a migrarem; se os próprios soldados israelenses confessam assassinatos a sangue frio em Gaza; se a lógica do sionismo nega abertamente um país aos palestinos; se o racismo e a intolerância têm sido a tônica da política israelense?

Ainda, porque Ahmadinejad não deve dizer estas coisas se hoje pela manhã o ministro de Assuntos Exteriores de Israel, o racista Avigdor Liberman, líder do partido de extrema-direita Israel Beiteinu (Nossa Casa), referiu-se da mesma forma ao presidente do Irã e seu país?

Liberman, parceiro do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, é autor desta tirada: "Os árabes israelenses são um problema ainda maior do que os palestinos e a separação entre os dois povos deverá incluir também os árabes de Israel... por mim eles podem pegar a baklawa (doce árabe típico) deles e ir para o inferno". Quem é ele para falar em racismo?

Devemos cobrar sobriedade e civilidade apenas dos iranianos?

OBS: Representantes do Vaticano, embora tenham criticado as declarações de Ahmadinejad, permaneceram na Conferência. Ponto para o Papa Bento XVI. "Discursos como o do presidente iraniano não vão na direção certa, já que embora não tenha negado o Holocausto ou o direito à existência de Israel, usou expressões extremistas e inaceitáveis", afirmou o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, à Rádio Vaticano. Faltou apenas criticar as “expressões extremistas e inaceitáveis” dos israelenses.

Leia mais sobre este tema:
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo

Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo

O grupo Jewish Voice for Peace (JVP) enviou sua diretora de comunicação, Cecilie Surasky, para a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, que teve início hoje, em Genebra (Suíça).

Fundado em 1996, o JVP tem como objetivo primordial incentivar uma política estadunidense voltada para a paz, a democracia, os direitos humanos e o respeito às leis internacionais no Oriente Médio. A cobertura de Cecilie é garantia de boa informação e pode ser acompanha pelo blog Muzzlewatch ou pelo Twitter.

Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Estados Unidos, Austrália, Canadá, Itália, Holanda, Polônia, Nova Zelândia e Alemanha estão muito preocupados com o racismo e a intolerância. Por isso, boicotaram a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, que teve início hoje, em Genebra (Suíça) e durante cinco dias examinará questões como o racismo, a xenofobia e a intolerância.

Ok, agora vamos falar sério.

Esta é a quarta vez que os Estados Unidos deixam uma Conferência da ONU sobre o Racismo, sempre pela mesma razão: a condenação das políticas israelenses para com os palestinos nos debates e, até mesmo, nos documentos oficiais destes encontros. Preocupado com uma linguagem que condena as políticas de Israel, Washington já havia boicotado as duas primeiras Conferências, em 1978 e 1983, e retirou-se da terceira, em 2001.

A questão de fundo é que Estados Unidos e seus aliados – e Israel, obviamente – não aceitam qualquer relação entre sionismo e racismo. No entanto, uma resolução da ONU, de 1975, considerou racistas os fundamentos ideológicos do sionismo. Esta resolução foi revogada em 1991 por pressões políticas de Washington e Cia. As mesmas pressões políticas que vigoram ainda nas Nações Unidas, transformando-a em um teatro de marionetes cuja voz se perde em meio ao poderio ocidental.

É óbvio que há entre os países árabes, e entre as entidades civis ao seu redor, àqueles que intensificam a intolerância religiosa, em especial quando questionam o direito de o Estado de Israel existir. Os israelenses têm tanto direito a ter seu país quanto qualquer outro povo, inclusive os palestinos. Qualquer ataque contra este direito básico deve ser condenado e combatido.

No entanto, é preciso dizer à exaustão que questionar o sionismo não é o mesmo que questionar o judaísmo ou o Estado de Israel. Questionar o sionismo é, na verdade, perguntar por que diabos a Palestina deve conter uma maioria judaica (questão de fundo do sionismo) se, além dos judeus, outros povos também tem sua herança histórica ligada à região. No entanto, a desonestidade intelectual que domina este debate dá voz aos oportunistas que querem linkar qualquer crítica às políticas israelenses a uma forma de anti-semitismo.

É sobre a condenação das conseqüências do sionismo que repousa o conflito: as políticas israelenses de domínio, limpeza étnica e ocupação ilegal do território palestino (condenada pela ONU nas resoluções 181 e 242, que os israelenses se recusam a cumprir). Estados Unidos e Israel se recusam a discutir estas questões e, sob a égide do “anti-semitismo”, desqualificam qualquer posicionamento crítico em relação às políticas que adotam.

Em 2001, por exemplo, o relatório final da Conferência (veja o esboço) ressaltava o horror do holocausto judeu, mas, também a opressão contra os palestinos.

Estamos preocupados com o sofrimento imposto ao povo palestino que vive sob ocupação estrangeira. Reconhecemos o direito inalienável do povo palestino à autodeterminação e ao estabelecimento de um Estado independente e reconhecemos o direito à segurança de todos os Estados da região, entre os quais Israel.

O relatório expressava, ainda, inquietação com a intolerância religiosa, de ambos os lados.

Também reconhecemos com grande preocupação o aumento do anti-semitismo e da islamofobia em várias partes do mundo, bem como a emergência de movimentos raciais e violentos inspirados no racismo e nas idéias discriminatórias contra judeus, muçulmanos, árabes e outras comunidades.

É exatamente este caráter de nivelamento do sofrimento que o Estado de Israel não admite. Israel quer ter o monopólio da dor, usando os horrores da Segunda Guerra Mundial como eterno argumento para perpetrar sua política de expansão sobre outros povos.

Leia mais sobre este tema:
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel? 13/04/09
- Soldados israelenses falam de abusos em Gaza 26/03/09
- A visão distorcida de Nonie Darwish sobre islamismo 24/03/09
- Jornal israelense denuncia assassinatos de civis na Faixa de Gaza 20/03/09
- Império Israelense 19/03/09
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância? 18/03/09
- A questão humanitária definitiva do nosso tempo 03/03/09

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Quem é Avigdor Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel?

Confira os links e fontes (em inglês e hebraico), indicados pela organização judaica americana JStreet para saber quem é Avigdor Lieberman:

- Lieberman não entende a experiência judaica. Ele afirmou que “as minorias são o maior problema no mundo.”

- Lieberman já provocou um incidente internacional, ao declarar que, o presidente do Egipto Hosni Mubarak podia "ir para o inferno" e obrigando o governo de Israel a pedir desculpas a um dos seus raros amigos na região. Ele também apelou a que Israel bombardeasse a barragem egípcia de Aswan.

- Lieberman tem repetidamente alegado que, “Todas as negociações baseadas na troca de terra por paz são um erro fatal.”

- A proposta de Lieberman sobre o “juramento de fidelidade” pode privar os cidadãos dos seus direitos civis. Precisa de uma comparação histórica? Pense nos reflexos negativos resultantes das perseguições de McCarthy, na década de 50, nos Estados Unidos.

- Lieberman liderou o esforço da Comissão Eleitoral Central israelense 0para que os partidos políticos Árabes israelenses fossem proibidos de concorrer às eleições de fevereiro; o Supremo Tribunal israelense decidiu revogar esta proibição. No Supremo Tribunal, Lieberman disse a um membro árabe do Knesset, “Nós vamos cuidar de você da mesma forma que o Hamas. Você é um terrorista.

- Lieberman, durante um debate no plenário do Knesset, disse a um dos seus membros, o árabe Wassel Taha, “é pena o Hamas não estar encarregue de cuidar de ti…. És o representante dos terroristas nesta Casa” e acrescentou, “O destino dos colaboradores no Knesset deve ser semelhante aos dos colaboradores dos nazistas… No final da II Guerra Mundial, não só os criminosos foram executados nos julgamentos de Nuremberg, mas também os seus colaboradores. Espero que seja também esse o destino dos colaboradores (no Knesset).”

- Lieberman apoia uma forma de limpeza étnica, defendendo a transferência dos cidadãos árabes-israelenses para fora de Israel. (A transferência da população é conhecida, de acordo com o direito internacional, como uma forma de "limpeza étnica"). Ele argumenta: "a idéia da terra pela paz é falsa... o princípio orientador tem de ser troca de populações e territórios... Nunca vamos concordar com uma definição de "dois Estados para dois povos".
Lieberman também afirmou que “Os árabes tem todos os seus direitos em Israel, mas não tem direito ao Eretz Yisrael. [Terra de Israel] "

- Lieberman referindo-se "àqueles israelenses e judeus que agem contra o Estado no exterior", afirmou que “podem ser comparados aos Kappos (judeus colaboracionistas) nos campos de concentração”. Também se refere os que pertencem aos israelenses pacifistas como “Hellenists" [Estrangeirados].

- Lieberman tem poucos amigos na comunidade judaica americana. O proeminente rabino americano Eric Yoffie escreveu que Lieberman promoveu “uma campanha (eleitoral) ultrajante, abominável, cheia de ódio, transbordante de incitamentos que, se não forem devidamente controlados, poderão levar Israel às portas do Inferno”. O chefe do Comitê Judaico Americano, David Harris, afirmou que as propostas de Lieberman são "no mínimo, profundamente irresponsáveis," e podem “gelar" a democracia em Israel.

A plataforma política de Lieberman poderá ameaçar a histórica relação EUA-Israel. Durante décadas, judeus americanos e outros amigos de Israel têm apoiado esta relação devido à partilha comum de valores democráticos e de interesses nacionais. O que acontecerá quando um destes pilares - valores democráticos comuns - é ameaçado ou destruído?

sábado, 11 de abril de 2009

Palestino que perdeu três filhas na ofensiva israelense é indicado para Prêmio Nobel da Paz

O médico ginecologista palestino Ezzeldeen Abu al-Ashi, de 55 anos, foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz, segundo o jornal árabe asharq alawsat, num artigo, em inglês, intitulado “A jornada de Ezzeldeen Abu al-Ashi”.

O médico, que mora no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza, protagonizou umas das cenas mais trágicas da recente ofensiva militar israelense, quando perdeu três filhas em um ataque no dia 17 de janeiro.

O caso foi emblemático, pois al-Ashi ligou para um jornalista israelense, seu amigo, Eldad Slomi, do Canal 10, para pedir auxílio logo após o ataque (sua residência foi atingida por disparos de artilharia), no momento em que este que estava no estúdio. Mesmo estando no ar, o jornalista atendeu a chamada, preocupado, e transmitiu a conversa ao vivo.

Do outro lado da linha, os gritos desesperados de Abu al-Aish, contando a Eldad que as filhas estavam mortas. Sem disfarçar a emoção, o jornalista tenta usar seus contatos e envia uma ambulância para socorrer o amigo palestino, trazendo as vítimas para serem atendidas em hospitais de Israel.

As cenas do drama são indescritíveis – veja o vídeo (que demora 4:18 minutos, em hebreu, com legendas em inglês – para ativar as legendas clique no triângulo que se encontra no canto inferior esquerdo da imagem).

Abu al-Aish formou-se em Israel e durante anos trabalhou em diversos hospitais do país.

A indicação para o prêmio foi feita pelo Departamento de Estado da Bélgica, que considerou al- Aish um "soldado da paz". O médico já tinha sido agraciado anteriormente com a cidadania honorária belga “em reconhecimento dos seus esforços ao serviço da humanidade”.

OBS: 1.455 palestinos, dos quais 431 crianças morreram durante a ofensiva israelense. Dos 5.380 feridos, 1.872 eram crianças.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Desgovernos

Em Gaza, o governo nas mãos dos fundamentalistas islâmicos do Hamas. Na Cisjordânia, o desmoralizado governo do secular Fatah. E, agora, em Jerusalém, o espetáculo fisiológico da posse de Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro de Israel, em uma das mais obscenas distribuições de cargos já vistas no país. Nada para brindar. Israel toma um perigoso caminho mais para a direita e os palestinos estão desgovernados.

Interessante artigo de Caio Blinder sobre a situação política em Israel e nos territórios palestinos ocupados.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Soldados israelenses falam de abusos em Gaza

No último dia 20 publiquei aqui o artigo “Jornal israelense denuncia assassinatos de civis palestinos na Faixa de Gaza”, sobre as denúncias do jornalista Amos Harel, do jornal israelesne Haaretz, de que o exército israelense havia assassinado civis na Faixa de Gaza durante a última ofensiva na região. A seguir, traduzo a reportagem 'Shooting and crying', com as transcrições de relatos de soldados que deram origem às denúncias.

'Atirando e chorando'
Por Amos Harel (Tradução Victor Barone)


Menos de um mês depois do encerramento da operação Chumbo Derretido na Faixa de Gaza, dezenas de graduados do programa preparatório da escola pré-militar Yitzhak Rabin, foram convocados para a Academia Oanin, em Kiryat Tivon. Desde 1998 o programa prepara seus participantes para o serviço militar. Muitos assumem postos de comando em combate e outros grupos de elite das Forças de Defesa de Israel (FDI). O fundador do programa, Danny Zamir, ainda o encabeça e serve como sub-comandante de um batalhão da reserva.

Na sexta-feira, 13 de fevereiro, Zamir convidou soldados e oficiais graduados no programa para uma longa discussão sobre as suas experiências em Gaza. Eles falaram abertamente, mas com considerável frustração.

A seguir, há extensas transcrições do encontro, conforme o boletim do programa, Briza, publicado na quarta-feira (17). Os nomes dos soldados foram modificados para preservar sua identidade. Os editores também deixaram de fora alguns detalhes referentes à identidade das unidades que agiram de forma problemática em Gaza.

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Danny Zamir: "Não é minha intenção que possamos avaliar as realizações e os significados político-diplomáticos da Operação Chumbo Derretido nesta noite, nem de lidar com o seu aspecto militar. Contudo, a discussão é necessária porque esta foi uma ação de guerra excepcional para a história da FDI, que estabeleceu novos limites para o código de ética do exército e do Estado de Israel como um todo.

Esta foi uma ação que semeou destruição maciça entre civis. Não é certo que poderíamos ter agido diferente, mas, em última análise, emergimos desta operação sem que os Qassams fossem interrompidos. É muito possível que repitamos essa operação em grande escala nos próximos anos, porque o problema na Faixa de Gaza não é simples e não é de todo certo que tenha sido resolvido. O que nós queremos nesta noite é ouvir os combatentes."

Aviv: "Eu sou comandante de esquadrão de uma companhia que ainda está sob treinamento na Brigada Givati. Fomos a um bairro na parte sul da cidade de Gaza. De forma geral foi uma experiência especial. No decorrer do treinamento, você aguarda o dia em que entrará em Gaza, e no fim, não é realmente como eles dizem que é. É mais como... você vem, entra em uma casa, expulsa os moradores e ocupa ela. Nós permanecemos em um casa por cerca de uma semana.

Perto do fim da operação, houve um plano para entrar em uma área densamente povoada na cidade de Gaza, propriamente dita. Nas reuniões começaram a falar conosco sobre ordens para abrir fogo no interior da cidade, porque, como você sabe, eles usaram muito poder de fogo e mataram um grande número de pessoas pelo caminho, de modo que não fossemos atingidos e eles não atirassem em nós.

Em um primeiro momento, a ação limitava-se a entrar em uma casa. Nós devíamos entrar nelas com um blindado chamado Achzarit (Cruel) para arrebentar as portas dos níveis inferiores e começar a atirar depois... Eu chamo isso de assassinato... esperava-se que subíssemos de andar em andar e atirássemos nas pessoas que encontrássemos. Inicialmente eu me questionei: qual a lógica disto?

Nossos superiores disseram que isso era permissível pois as pessoas que optaram por ficar no setor e dentro de Gaza estava condenadas, terroristas, pois não tinham fugido. Eu não entendo. Por um lado eles não tinham mesmo para onde fugir, por outro nos dizem que, como eles não fugiram, a culpa era deles. Isso também me assustou um pouco. Eu tentei exercer alguma influência, na medida do possível, a partir da minha posição de subordinado, para alterar esta situação. No final, o procedimento passou a ser o de entrar em uma casa, usar megafones dizendo (aos inquilinos): 'Vamos lá, todos para fora, vocês tem cinco minutos para sair de casa, quem não o fizer será morto.

Eu disse aos nossos soldados 'As ordens mudaram. Nós vamos entrar na casa, eles têm cinco minutos para sair, verificaremos cada pessoa que sai individualmente para confirmar que estão desarmados, e então iniciamos a checagem andar por andar... Isto significa entrar na casa, abrindo fogo em tudo que se move, atirando granadas, todas essas coisas. Então, houve um momento muito chato. Um dos meus soldados veio a mim e perguntou o por que da mudança. Eu disse, 'O que não está claro? Não queremos matar civis inocentes’. Ele respondeu, ‘É? Qualquer um que esteja lá dentro é terrorista, todo mundo sabe disso’. Eu disse, 'Você acha que as pessoas vão realmente fugir? Ninguém vai fugir’. Ele diz, ‘É claro’, e então seus amigos se juntaram a conversa: ‘Temos de matar todos que estejam lá dentro. Sim, qualquer pessoa que esteja em Gaza é terrorista’, e todas as outras coisas que eles meteram na nossa cabeça através da mídia.

Então eu tentei explicar para o cara que nem todo mundo que está lá é terrorista, e que depois que ele mata, digamos, três filhos e quatro mães, vamos subir e matar outras 20 pessoas. E, no fim, se tivermos um prédio de oito andares com cinco apartamentos em cada andar, você terá assassinado de 40 a 50 famílias. Tentei explicar porque nós temos que deixá-los sair e só depois entrarmos em suas casas. Isso não ajudou muito. É frustrante perceber que eles sabem que dentro de Gaza pode-se fazer o que bem entender, arrombar casas por nenhum outro motivo a não ser o prazer de fazer isso.

Você não quer ter a impressão, a partir dos oficiais, de que não existe qualquer lógica para isso, mas eles não dizem nada. Para escrever ‘morte aos árabes’ nas paredes, para cuspir nas fotos de família, apenas porque você pode fazer isso. Penso que esta é a principal questão para compreender o quanto a FDI decaiu no quesito ética. É disso que eu mais vou lembrar.

Um dos nossos oficiais, um comandante de companhia, viu alguém vindo por uma estrada, uma mulher, uma mulher velha. Ela estava caminhando ao longe, mas perto o suficiente, de modo que você poderia mandar alguém até ela. Se ela era suspeita ou não, não sei. No final, ele mandou alguém até o teto para eliminá-la. A partir da descrição desta história, eu senti que se tratava simplesmente de assassinato a sangue frio".

Zamir: "Eu não entendo. Porque ele atirou nela?"

Aviv: "Isso é que é supostamente legal a respeito de Gaza: você vê uma pessoa em uma estrada, caminhando. Ela não tem que estar com uma arma, você não precisa se identificar, você pode, simplesmente, matá-la. Havia uma senhora perto de nós, com quem não vi arma alguma. A ordem era abater esta pessoa assim que a víssemos."

Zvi: "Os relatos de Aviv são precisos, mas é possível entender de onde eles surgem. E essa mulher, você não sabe se ela era... Não era para ela estar lá, porque houve comunicados e bombardeios. A lógica diz que ela não deveria estar lá. O jeito de descrever isso, como assassinato a sangue frio, não é correto. Sabe-se que eles têm informantes e este tipo de coisa."

Gilad: "Mesmo antes de sairmos, o comandante do batalhão deixou claro para todos uma lição muito importante, tirada da Segunda Guerra do Líbano. Foi a forma como a FDI adentra uma região - com muito poder de fogo. A intenção é a de proteger os soldados por meio deste poder de fogo. Na operação, as nossas perdas foram realmente leves e o preço disso foi um monte de palestinos mortos."

Ram: "Eu servi em uma companhia de operações na Brigada Givati. Depois de termos ido para as primeiras casas, encontramos uma casa com uma família dentro. Parecia relativamente calma. Nós não abrimos fogo, gritamos para que todos descessem. Nós os colocamos em uma sala e, depois, saímos da casa e entramos em outra. Alguns dias depois recebemos ordens de libertar a família. Eles tinham atiradores posicionados no teto. O comandante do pelotão deixou a família sair e disse para irem para a direita. Uma mãe e seus dois filhos não entenderam e foram para a esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador no telhado que os deixassem passar... ele fez o que se esperava dele, seguiu suas ordens."

Pergunta do público: “A que distância se deu isso?”

Ram: "Entre 100 e 200 metros, algo assim. Eles saíram da casa onde o atirador estava, avançaram um pouco e, de repente, ele viu pessoas que se deslocavam em uma área onde estavam proibidos de estar. Eu não acho que ele sentiu-se muito mal com isso, porque, afinal de contas, até onde ele sabia, estava fazendo seu trabalho de acordo com as ordens que recebeu. E a atmosfera em geral, pelo que entendi a partir da conversa que tive com meus homens... não sei como descrever... A vida dos palestinos, vamos dizer assim, é algo muito, muito menos importante do que as vidas dos nossos soldados. Então, é assim que se justificam estas coisas."

Yuval Friedman (instrutor chefe do programa Rabin): "Não havia uma ordem para solicitar permissão para abrir fogo?"

Ram: "Não. Não existe isso além de uma determinada linha. A idéia é que se você está com medo, eles vão escapar de você. Se um terrorista se aproxima e ele está muito perto, ele podia rebentar com a casa ou algo assim ".

Zamir: "Após mortes como estas, por engano, houve alguma investigação na FDI? Eles analisaram como isso poderia ter sido evitado?"

Ram: "Não veio ninguém da unidade de investigação da Polícia Militar. Não houve nenhum... Para todos os incidentes, existem investigações individuais e exames gerais, durante todo o desenrolar da guerra. Mas eles não focam nisso especificamente."

Moisés: "A atitude é muito simples: Não é agradável de dizer isso, mas ninguém se preocupa. Nós não estamos investigando esta questão. Isto é o que acontece durante o combate e durante a rotina da segurança."

Ram: "O que eu lembro, em especial no começo, é a sensação de uma quase missão religiosa. Meu sargento é um estudante de um hesder yeshiva (um programa que combina estudo e serviço militar religiosa). Antes de irmos, ele reuniu o pelotão inteiro e fez uma oração para os que iam para a batalha. Um rabino da brigada estava lá, entrou em Gaza e correu conosco encorajando-nos e rezando. E, também, quando estávamos lá dentro, nos enviaram livretos cheios de Salmos, uma tonelada de Salmos. Penso que, pelo menos na casa onde fiquei por uma semana, poderíamos encher uma sala com salmos, folhetos e coisas assim.

Houve uma enorme lacuna entre o material da academia e o que os rabinos da FDI mandaram. A academia publicou um panfleto para comandantes - algo sobre o histórico do combate de Israel em Gaza desde 1948 até o presente. Os rabinos trouxeram uma lote de livros e artigos, e sua mensagem era muito clara: Nós somos o povo judeu, que veio a esta terra por um milagre, Deus nos trouxe de volta a esta terra e agora temos de lutar para expulsar os infiéis que estão interferindo com a nossa conquista dessa terra santa. Esta foi a mensagem principal, e toda a noção que muitos soldados tiveram nesta operação foi de que ela era uma guerra religiosa. Da minha posição como um comandante, eu tentava falar sobre a política - os fluxos na sociedade palestina, sobre como não é todo mundo que está com o Hamas em Gaza, e que não é cada habitante que quer nos derrotar. Eu queria explicar aos soldados que esta guerra não é uma guerra para a santificação do santo nome, mas sim para por fim aos Qassams."

Zamir: "Gostaria de pedir aos pilotos que estão aqui, Gideon e Yonatan, que nos contem um pouco sobre as suas perspectivas. Como soldado de infantaria, isso me interessara. Como se sentem quando bombardeiam uma cidade como essa?"

Gideon: "Em primeiro lugar, sobre o que você disse a respeito da insana quantidade de poder de gogo: Na primeira incursão durante os combates, o poder de fogo foi impressionante, muito grande, e foi isso que fez com que todos os Hamasniks se escondessem nos abrigos mais profundos e fez com que eles se escondessem até duas semanas após os combates.

Em geral, a forma como funciona para nós, para você entender um pouco as diferenças, é que à noite eu voltava para o esquadrão, faria uma incursão na Faixa de Gaza e iria para casa dormir. Eu iria para casa dormir, em Tel Aviv, na minha cama quente. Não estou preso em uma cama na casa de uma família palestina, o que faz a vida é um pouco melhor.

Quando estou com o esquadrão, não vejo um terrorista lançando um Qassam e depois decido voar atrás dele. Existe todo um sistema que nos dá suporte, que serve como nossos olhos, ouvidos e inteligência, criando mais e mais alvos em tempo real, de um nível de legitimidade ou de outra. Em qualquer caso, eu tento acreditar que estes são objetivos (determinados de acordo com) o mais alto nível possível de legitimidade.

Eles lançaram panfletos sobre Gaza e, às vezes, disparavam um míssil de um helicóptero na esquina de alguma casa, só para agitar um pouco, para que todos dentro da casa fugissem. Essas coisas funcionavam. As famílias saem, e as pessoas de verdade (ou seja, os soldados) podem entrar em casas vazias, pelo menos de civis inocentes. Sob esta perspectiva é que funciona.

De qualquer forma, eu chego ao esquadrão, obtenho um alvo com uma descrição e coordenadas, e, basicamente, certifico-me de que não está dentro da linha das nossas forças. Eu olho para a imagem da casa que tenho que atacar, vejo se ela corresponde a realidade, avanço, aperto o botão e a bomba atinge o alvo.

Zamir: "Entre os pilotos, há também os que falam em remorso? Por exemplo, eu fiquei terrivelmente surpreso com o entusiasmo em torno da morte de guardas de trânsito em Gaza no primeiro dia da operação. Mataram 180 guardas. Como piloto, eu teria questionado isso."

Gideon: "Existem duas questões aí. Taticamente falando, você chamá-los de 'policiais'... Em qualquer caso, eles estão armados e pertencem ao Hamas... Nos bons tempos estas pessoas pegaram o pessoal do Fatah e os jogaram pela janela para ver o que aconteceria.

No que diz respeito ao pensamento, você se senta com o esquadrão e existem muitas discussões sobre o significado da guerra, sobre o que estamos fazendo, há muita coisa para falar. A partir do momento em que você liga o motor do avião até o momento em que você o desliga, todos os seus pensamentos, toda a sua concentração e toda a sua atenção estão na missão que você tem de levar à cabo. Se você tem uma dúvida injustificada, você fica susceptível a estragar tudo e acertar uma escola com 40 crianças. Se o prédio não é o alvo que eu deveria atingir, mas sim uma casa onde estão os nossos soldados, o preço do erro é muito, muito elevado."

Pergunta da platéia: “Alguém no esquadrão não apertou o botão, pensou duas vezes?”

Gideon: "Essa pergunta deve ser dirigida às pessoas envolvidas nas operações com helicópteros. Com as armas que eu usei, a minha capacidade de tomar uma decisão que contradiz o que me foi dito é igual a zero. Eu lanço uma bomba de uma altura na qual posso ver toda a Faixa de Gaza. Vejo também Haifa, vejo o Sinai, mas é mais ou menos o mesmo. É realmente longe."

Yossi: "Eu sou sargento de um pelotão de operações em uma companhia de pára-quedistas da Brigada. Nós estávamos em uma casa e descobrimos uma família em seu interior, que não deveria estar ali. Nós os colocamos no porão, e deixamos dois guardas para assegurar que não causassem problemas. Gradualmente, o distanciamento emocional entre nós se rompeu – nós fumamos cigarros com eles, bebemos café com eles, falamos sobre o significado da vida e os combates em Gaza. Depois de muitas conversas o proprietário da casa, um homem de mais de 70 anos, disse que era bom que nós estivéssemos em Gaza, que era bom que a FDI estivesse fazendo o que estava fazendo.

No dia seguinte enviamos o dono da casa e seu filho, um homem de 40 ou 50, para interrogatório e descobrimos que ambos eram ativistas políticos no Hamas. Isso foi um pouco chato – que eles nos dissessem que era legal estarmos ali e blá-blá-blá, e então você descobre que eles estavam mentindo na sua cara o tempo todo.

O que me aborreceu foi que, no final, depois de descobrir que os membros desta família não eram exatamente nossos bons amigos e saber que eles mereciam ser forçados a sair, o meu comandante de pelotão sugeriu que, quando saíssemos da casa, deveríamos limpar todas as coisas, pegar e recolher todo o lixo em sacos, varrer e lavar o chão, dobrar os cobertores, fazer uma pilha com os colchões e colocá-los de volta nas camas."

Zamir: "O que você quer dizer? Todas as unidades da FDI que deixam uma casa não fazem isso?"

Yossi: "Não, absolutamente. Pelo contrário: na maioria das casas deixamos pichações para trás e coisas deste tipo.”

Zamir: "Isso é simplesmente compotar-se como animais."

Yossi: "Não se espera que você dobre cobertores enquanto estão atirando em você."

Zamir: "Eu não ouvi que estavam atirando em vocês. Não é disso que eu estou reclamando, mas se você já passou uma semana em uma casa, limpe sua sujeira."

Aviv: "Recebemos uma ordem num dia: todo o equipamento, todos os móveis, limpar toda a casa. Nós jogamos tudo, tudo pelas janelas para fazer espaço. Todo o conteúdo das casas voa pelas janelas."

Yossi: "Houve um dia, quando um Katyusha, um Grad, caiu em Be'er Sheva e uma mãe e seu bebê foram feridos. Eram vizinhos de um dos meus soldados. Ouvimos toda a história no rádio, e ele não gostou nada. Então, o cara era um pouco vingativo e você pode entendê-lo. Como dizer a uma pessoa como essa que ‘vá lá, vamos lavar o chão da casa de um ativista político no Hamas, que acabou de lançar um Katyusha contra seus vizinhos, fazendo com que um deles tivesse a uma perna amputada?’ Não é uma coisa fácil de fazer, especialmente se você não concordar com ele em tudo. Quando o meu comandante de pelotão disse ‘ok, diga a todos que empilhem colchões e cobertores, não foi fácil para mim fazê-lo’. Houve muita gritaria. No fim das contas, eu estava convencido e percebi que realmente era a coisa certa a fazer. Hoje, eu aprecio e até mesmo admiro ele, o comandante do pelotão, pelo o que aconteceu lá. No fim das contas não me parece que nenhum exército, o exército sírio, o exército afegão, iria lavar o chão da casa do inimigo, e ele certamente não dobraria cobertores para colocá-los de volta nos armários."

Zamir: "Penso que seria importante que os pais se sentassem aqui e ouvissem este debate. Penso que seria um instrutivo debate, e também muito desanimador e deprimente. Você está descrevendo um exército com normas éticas muito baixas, esta é a verdade... Eu não estou julgando você e não estou reclamando para você. Estou apenas refletindo sobre o que estou sentindo depois de ouvir suas histórias. Eu não estava em Gaza, e assumo que entre os soldados da reserva o nível de restrição e controle é superior, mas acho que no seu conjunto, vocês estão refletindo e descrevendo o tipo de situação no qual estávamos envolvidos.

Após a Guerra dos Seis Dias, quando as pessoas voltavam do combate, elas sentavam em rodas e descreviam o que haviam sofrido. Durante muitos anos as pessoas que fizeram isso diziam ter ‘atirado chorando’. Em 1983, quando voltamos da guerra no Líbano, as mesmas coisas foram ditas sobre nós. Temos de pensar sobre os eventos que temos vivenciado. Temos de lidar com eles também, em termos da criação de uma norma ou de normas diferentes.

É muito possível que o Hamas e o exército sírio se comportem de maneira diferente de nós. O ponto é que não somos o Hamas e não somos o exército sírio ou o exército egípcio, e se clérigos estão nos incomodando com unção e colocando livros sagrados em nossas mãos, e se os soldados nessas unidades não são representantes de todo o espectro do povo judeu, mas sim de certos segmentos da população - o que estamos esperando? Para quem vamos nos queixar?

Como reservistas nós não levamos tão a sério as ordens das brigadas regionais. Nós deixamos que velhos e famílias passem. Porque matar pessoas quando está claro para você que são civis? Qual o aspecto da segurança de Israel que será prejudicado, quem será prejudicado? Exercitem o julgamento, sejam humanos."