sábado, 27 de junho de 2009
Idelber Avelar fala sobre a Lei Azeredo
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
O brasileiro cultiva o germe da intolerância. Por mais que rejeitemos o rótulo, ele está estampado em nossa sociedade e é visto com mais clareza em pesquisas, como a que foi encomendada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (do MEC), segundo a qual 99,9% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e mais de 90% gostariam de manter algum nível de distanciamento social dos portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Em maio, outra pesquisa apontou que um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneras (LGBT) e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população.
São números alarmantes, que podem ser inflados com uma postura dúbia sobre o tema por parte da mídia – como apontou a jornalista Ligia Martins Almeida no artigo “A mídia e o preconceito contra os homossexuais”. No episódio que envolveu a ATMS e o legislativo municipal campo-grandense, a abordagem da imprensa foi morna, não esmiuçou o tema sob o ponto de vista da homofobia – mesmo diante do fato de a Câmara ter negado a concessão do título sem base ou argumento técnico que corroborasse a decisão.
O jornalista Irineu Ramos, que desde 2003 estuda a sexualidade e o gênero na mídia, desenvolveu em sua tese de mestrado uma análise do telejornalismo na cobertura da 11ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2007. Ele concluiu que das 48 reportagens sobre o evento, mais de 30 usavam abordagens pouco apropriadas sobre os homossexuais. Em entrevista ao site A Capa, ele fez a seguinte análise sobre a Parada Gay deste ano: “Como nos anos anteriores a mídia se prendeu em questões concretas, como o aumento nas vendas no comércio, lotação de hotéis, violência e nada mais. Há uma dificuldade significativa da grande imprensa em abordar as questões subjetivas das sexualidades. A grande imprensa reproduz um discurso heterocentrado e não deixa nenhum espaço para as diferenças de gênero.”.
Para ele, “a grande imprensa não se permite ir um pouco mais a fundo nas questões envolvendo a homossexualidade”.
Referindo-se as duas ocorrências de violência durante o evento neste ano, Irineu afirmou que a imprensa insiste em navegar por águas rasas quando aborda temas relacionados aos homossexuais: “A grande imprensa poderia pegar o gancho da bomba e explorar a questão da homofobia, com se forma isso no indivíduo, o que está por trás desta agressão, a conseqüência disso nas pessoas vítimas de homofobia etc. Mas não, restringiu tudo a uma questão policial.”. A mesma relação pode ser feita com a reação da imprensa sul-mato-grossense frente a flagrante homofobia patrocinada pela Câmara Municipal de Campo Grande contra a ATMS.
O jornalista carioca André Fischer, dono da marca Mix Brasil, vê melhoras nesta relação entre mídia e o universo LGBT, mas considera que há ainda um longo caminho a ser trilhado. Em janeiro, em entrevista ao Escrevinhamentos, citou a abordagem sobre o tema nas novelas: “É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez, o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na tevê. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem um receio de ir além disso.”.
No último dia 12, durante um evento que reuniu profissionais de imprensa em São Paulo, a abordagem da homossexualidade nas redações foi um dos temas discutidos. Apesar de a maioria dos integrantes da mesa ter garantido que não há preconceito nas redações em relação ao enfoque de temas que envolvem o mundo LGBT, Ivan Martins - editor executivo da revista Época – afirmou: "Dizer que não há preconceito na redação é mentira. Existe uma pressão por parte de quem edita a revista para que abordemos pautas mais 'normais'. A grande imprensa ainda não sabe lidar com o tema".
Totalitarismo?
Esta postura negligente da mídia em relação ao preconceito de gênero e de opção sexual não é novidade, como aponta Victor Barroco no artigo “Mídia brasileira ignorou rebelião de Stonewall”, e surgiu novamente no dia 1º de junho, quando os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo publicaram o artigo Totalitarismo e Intolerância, do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil.
Di Franco critica medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula, entre elas a inclusão nos livros didáticos de temáticas relacionadas a famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais; a recomendação da implantação de cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema.
Sustenta Di Franco: “os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo único de pensar, de ver e de sentir. Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros.”. Segundo ele, “tal estratégia tem nome: totalitarismo”, e vai além: “O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.”.
É verdade, o governo não pode impor um modelo de família. No entanto, dizer que é isso o que ocorre a partir das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT seria um contra-senso caso a afirmação viesse como simples opinião em um artigo. Mas é apavorante vindo de uma pessoa que – como aponta Leandro Colling no artigo “Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém“ – “presta ou prestou assessoria a vários jornais brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente homofóbico”.
Colling lembra, ainda, que – segundo a revista Época – Di Franco já treinou mais de 200 editores brasileiros. “Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos periódicos na atualidade”, espeta, e lembra: “Também fico a imaginar o que esse professor de ética está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos como representante da Opus Dei no Brasil.”.
Ora, um membro ativo da Opus Dei criticando a imposição de modelos de família é, no mínimo, muito estranho.
Leia mais sobre este tema:
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
Uma ótima análise sobre o Jornalismo
De Rafael Galvão no artigo “De jornalistas e ascensoristas”, a melhor análise que li sobre o Jornalismo e o diploma.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas
O programa exibiu participações gravadas via internet dos correspondentes Sílio Boccanera, baseado em Londres, e Ariel Palácios, que reside em Buenos Aires. Boccanera explicou que não existe a exigência do diploma para a prática jornalística na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, nas duas Irlandas e na maior parte dos países da Europa continental. "Na verdade, eu ousaria dizer que os editores aqui ficariam espantados se soubessem que poderiam contratar apenas quem fosse formado em jornalismo. Eles consideram que o essencial é a formação da pessoa. Talvez até uma qualificação universitária que pode ser, inclusive, em Jornalismo, mas que na maioria das vezes não é".
Sílio Boccanera disse que as universidades oferecem um curso chamado Estudos de Mídia, mas que esta formação não é "muito bem-vista" porque enfatiza mais a teoria do que a prática. Na Inglaterra, o recrutamento de jornalistas é feito "com base no potencial que o editor acredita que ele vá oferecer". A maioria das empresas oferece treinamento através de um curso específico de jornalismo. De uma maneira geral, os editores que contratam não levam em conta a formação acadêmica em jornalismo. "Como experiência pessoal de alguém conhece jornalismo aqui na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil – e eu sou formado em jornalismo – eu diria que a exigência do diploma não faz muito sentido. Não é um diploma inútil, mas não deve ser uma exigência, um requerimento oficial para que alguém possa exercer uma profissão", avaliou.
Na Argentina, nunca existiu a obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Ariel Palacios explicou que os profissionais argentinos têm uma ampla variedade de formação. A geração de veteranos é composta quase que integralmente por pessoas que cursaram um amplo leque de cadeiras de ciências humanas, sociais e econômicas ou não têm grau superior. Poucos desta geração são formados em comunicação social. A geração intermediária, formada nos anos de 1980, é mista. Já os profissionais que entraram no mercado a partir de meados da década de 1990 são, em sua maioria, formados em comunicação social.
A tendência da contratação de pessoal formado em jornalismo na Argentina ocorreu de forma natural nos últimos anos apesar da ausência da obrigatoriedade do diploma. Ao longo dos anos 1970 existiam poucas faculdades de jornalismo, mas a volta da democracia em 1983 e o fim da censura começaram a expandir o mercado. O boom ocorreu no início dos anos 1990, com o crescimento dos canais a cabo, além do crescimento do prestígio do jornalismo por conta de reportagens investigativas sobre corrupção. "Isso aumentou a demanda e gerou um boom de faculdades pequenas", explicou Palacios. Além disso, surgiram diversos cursos técnicos, principalmente na área de jornalismo esportivo.
Qual é o Valor do Conhecimento?
O ESTADO DE SÃO PAULO publica anúncio de página inteira, com os seguintes dizeres:
"Qual É O Valor Do Conhecimento?
A Informação Está Em Todo Lugar. Se Hoje Em Dia A Informação É De Graça: Qual É O Valor Do Conhecimento?"
É uma excelente discussão, especialmente para quem pretende escolher a profissão de jornalista no próximo vestibular.
De fato, a informação está em todo lugar. Está em blogs de economistas, advogados, professores, de empresas como a Petrobras, nas associações de classe.
Obama fez uma campanha em que as informações de seu Twitter passavam diretamente dele para os seus eleitores, sem ter a imprensa como intermediária. Tal fato reduziu, e muito, o poder da imprensa sobre os políticos americanos.
Políticos brasileiros há uns 25 anos descobriram este poder de intermediação (e de distorção) que a imprensa fazia das propostas do candidatos, e passaram a ter veículos de imprensa próprios, como rádios e TVs. Assim, Sarney governou dando concessões de rádios e TVs aos políticos em troca da aprovação de leis necessárias. ACM, Collor de Melo etc. e etc. eram (e são) donos de TV e jornais.
A imprensa escrita sofre há 20 anos a concorrência do jornalismo de TV, que é mais rápido e grátis.
Como pode O Estado de São Paulo concorrer com os telejornais, que oferecem a mesma informação grátis (basta ligar a televisão)?
Como os jornalistas podem concorrer com prêmios Nobel como Paul Krugman, que supostamente entendem muito mais de economia do que qualquer jornalista?
É um problema sério para qualquer futuro jornalista.
Aqueles que geram conhecimento não precisam mais da imprensa para transmitir tal conhecimento à sociedade. Basta abrir um blog e colocar as palavras-chave ou assunto. Depois, o Google te acha.
Melhor: se você der uma entrevista a um jornalista (e ele nem sempre escreve o que você disse), você pode preservar para sempre tal entrevista no seu blog, enquanto o jornal só fica nas bancas por um único dia.
Ainda existe uma saída para o jornalista, e eu até participei de uma mudança positiva no jornalismo brasileiro, algo inédito até então, e que acredito seja a solução.
Criei na revista Exame o banco de dados das 1000 maiores empresas brasileiras. Criamos conhecimento, publicávamos as melhores empresas, os benchmarks, as fórmulas de sucesso. Criávamos nós mesmos o conhecimento que estávamos publicando. A Exame pagou pelo conhecimento gerado, em vez de obtê-lo de graça dos entrevistados.
A Folha criou depois o Datafolha, com o mesmo objetivo: criar conhecimento.
A saída, como insinua o Estadão, é você pagar pelo conhecimento. E, provavelmente, terá de pagar caro. Terá de criar no jornal um conhecimento que ninguém mais tem, como fiz por 25 anos na Revista Exame, criando análises exclusivas sobre a economia brasileira, sob o ângulo do administrador. Tais análises eram aguardadas todo ano: sucesso de banca por 25 anos.
Assim sendo, talvez a escola de jornalismo não seja a melhor opção, mas sim uma escola que ensine conteúdo: seja de sociologia, política, economia ou administração -- uma das várias ciências ou assuntos que seu futuro jornal cobrirá. E criar um núcleo de pesquisas, como fizeram a Folha e a Revista Exame.
É algo para se pensar.
Morin e a internet
Do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários, em entrevista ao jornalista Lincoln Macário.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Rede de espionagem do Irã na internet conta com tecnologia ocidental
Tradução de Victor Barone
Publicado originalmente no Wall Street Journal
O regime iraniano desenvolveu, com o auxilio de empresas de telecomunicação européias, um dos mais sofisticados mecanismos de controle e censura para a internet, que permite ao governo examinar o conteúdo de comunicações individuais online em escala maciça.
Segundo especialistas em tecnologia do Irã e de outros países, os esforços do governo iraniano em monitorar o conteúdo da internet vão muito além do simples bloqueio de acesso a sites ou do corte de conexões.
Segundo estes especialistas, para confrontar a instabilidade política que consome o país desde a semana passada, o governo iraniano se engajou em práticas que permitem as autoridades não apenas bloquear as comunicações, mas, também, monitorá-las a ponto de colher informações individuais dos usuários, além de alterá-las em uma guerra de contra-informação.
Este monitoramento foi viabilizado, ao menos em parte, a partir do segundo semestre de 2008, por uma joint venture chamada Nokia Siemens Networks, reunindo a Siemens AG, um conglomerado alemão, e a Nokia Corp, companhia finlandesa de telefonia celular, garante Bem Roome, porta voz da joint venture.
Segundo Roome, o centro de monitoramento, instalado junto à empresa estatal iraniana de telecomunicações, é parte de um grande contrato com o Irã que inclui tecnologia de rede de telefonia celular. “Se você vende redes, você também pode vender a capacidade de interceptar qualquer comunicação feita a partir dela”, afirmou.
A venda destes equipamentos ao país já havia sido divulgada no ano passado pelo web site Futurezone, dedicado à tecnologia de informação.
O governo iraniano fez, recentemente, breves experiências com o equipamento, mas ainda não havia usado suas capacidades ostensivamente até os recentes distúrbios.
“Não sabíamos que eles podiam fazer tanto com estes equipamentos”, disse um engenheiro de redes em Teerã. “Agora sabemos que eles têm equipamentos poderosos que permite que eles façam rastreamentos muito complexos pela rede”.
Estas capacidades envolvem rastreamento de dados online de e-mails e chamadas de telefone virtuais, imagens e mensagens feitas por meio de redes sociais com Facebook e Twitter. Cada pacote de informações é desconstruído, examinado com palavras–chave e reconstruídos em milésimos de segundos. No caso do Irã, esta pesquisa é feita em todo o país por meio de um único provedor, segundo os engenheiros de rede familiarizados com o sistema do país.
Todos os olhos estão voltados para a internet nesta crise iraniana, assim como para as tentativas governamentais de combater a troca de informações online entre os dissidentes. A infiltração no tráfico de informações online no Irã pode explicar a razão pela qual o governo permitiu que a Internet continuasse a funcionar – e, também, porque a velocidade de acesso caiu pela metade nos dias seguintes a divulgação dos resultados da votação presidencial que impulsionou os distúrbios no país.
Usuários iranianos da internet reportaram esta diminuição na velocidade do acesso a uma proporção de décimo do normal. A análise de dados por meio dos mecanismos de espionagem atrasa a transmissão de dados online a não ser que seja acompanhada por um grande aumento no poder de processamento, dizem os analistas.
O Irã está “escavando sua opinião pública”, afirmou Bradley Anstis, diretor de estratégia técnica da Marshal8e6 Inc., uma companhia de segurança em internet situada em Orange, Califórnia. Ele e outros especialistas entrevistados examinaram o fluxo do tráfico online entrando e saindo do Irã e concluíam que ele possui características de monitoramento: “Parece que eles estão um passo à frente do que qualquer outro país esta fazendo, inclusive a China”, afirmou.
A China gaba-se de seu “Grande Firewall”, considerado o mais avançado e caro programa de censura à internet no mundo, e que também envolve inspeções nos moldes do que foi desenvolvido pela Nokia Siemens Networks. No entanto, na China, estas técnicas estão sendo desenvolvidas de forma mais descentralizada, ao nível dos provedores de acesso à internet, ao invés de um único centro de filtragem, dizem os especialistas. Isso sugere que esta filtragem não seja tão uniforme quanto a que acontece no Irã.
A diferença, ao menos em parte, tem a ver com a escala: a China possui cerca de 300 milhões de usuários de internet, mas que qualquer país. O Irã, onde se estima um contingente de 23 milhões de usuários, é capaz de rastrear toda a comunicação online em um único lugar, o Telecommunication Infrastructure Co., parte do monopólio estatal de telecomunicações iraniano. Todos os links internacionais rodam por meio desta companhia.
Filtros
Paralelamente ao que ocorre no Irã, membros da embaixada estadunidense em Beijing encontraram-se na sexta-feira com representantes chineses para expressar sua preocupação quando as novas exigências de que todos os computadores vendidos na China a partir de 1º de julho sejam equipados com software de filtragem de dados.
Se um governo quiser controlar o fluxo de informações através de suas fronteiras é necessário mais que bloquear o acesso a web sites localizados em outros locais. Agora, com a troca de dados por meio das redes sociais se tornando cada vez mais populares, regimes repressores estão se voltando para tecnologias que permitem analisar as informações produzidas e recebidas por seus cidadãos, mensagem por mensagem.
Grupos de direitos humanos têm criticado a venda deste tipo de software ao Irã e a outros regimes considerados repressores, pois eles podem ser usados para controlar dissidentes, com evidencia a crise iraniana. Questionado sobre o tema, Roome disse que a companhia “não pode escolher com quem faz negócios” e que “acredita ser melhor proporcionar às pessoas, onde quer que elas estejam, os meios de se comunicar do que deixá-las sem opção de serem ouvidas”.
Países com governos repressores não são os únicos interessados neste tipo de tecnologia. A Inglaterra tem uma lista de sites bloqueados, e o governo alemão está considerando medidas similares. Nos Estados Unidos, a National Security Agency tem esta capacidade – utilizada durante o Governo Bush por meio do "Terrorist Surveillance Program". A Casa Branca não comenta oficialmente se o programa tem sido usado pelo Governo Obama.
O governo da Austrália está experimentando filtros de internet para proteger seus jovens da pornografia online e tem recebido críticas dos que consideram a ação uma tentativa de censura.
Tecnologias de análise de conteúdo e filtragem já são comuns entre corporações, escolas e outras instituições, como parte dos esforços para bloquear spams e vírus, assim como de assegurar que os empregados e estudantes sigam as diretrizes de uso estabelecidas por estas entidades. Famílias também usam filtros em suas casas, para proteger seus filhos de sites indesejados, como os dedicados à pornografia e ao jogo.
A censura à internet no Irã foi desenvolvida com esta justificativa inicial, de bloquear a pornografia online, entre outros materiais considerados ofensivos pelo regime, segundo os que têm estudado o histórico da censura online no país.
O Irã tem apertado o cerco deste controle desde que a internet ampliou sua presença no país para além das universidades e das agências de governo no final dos anos 90. Neste período, o governo tentou limitar a vibrante blogosfera do país obrigando os blogeiros a obterem uma licença governamental. A medida provou-se de difícil implantação, segundo a OpenNet Initiative, uma parceria entre universidades que estudam a filtragem e vigilância sobre a internet (integram a parceria as seguintes instituições: Harvard University, University of Toronto, University of Cambridge e University of Oxford).
A partir de 2001, o governo do Irã requisitou aos provedores que instalassem sistemas de filtragem e também que todas as conexões internacionais fossem dirigidas a uma única gateway controlada pelo monopólio estatal de telecomunicação, segundo a OpenNet. Desde então o país bloqueou mais de cinco milhões de sites, de acordo com estimativas da ONG Repórteres sem Fronteiras.
Nas eleições presidenciais de 2005, o governo derrubou a internet por horas, responsabilizando um cyber ataque vindo de fora do país, que mais tarde provou-se ser uma acusação falsa de acordo com engenheiros de Teerã.
Alguns anos depois, uma pesquisa da OpenNet descobriu que o governo iraniano estava usando equipamentos de filtragem provenientes da empresa estadunidense Secure Computing Corp, apesar do embargo de comércio imposto pelos Estados Unidos ao Irã, em vigor desde a revolução islâmica de 1979. A Secure Computing Corp, agora incorporada pela McAfee Inc. negou, na época, qualquer conhecimento sobre uso de seus produtos no Irã. A McAfee, por sua vez, afirmou ter realizado diligências antes da aquisição da empresa, não tendo observado nenhum contrato com o Irã.
A construção de uma estrutura online de alcance nacional e coordenada de um ponto central requer imensos recursos, incluindo técnicos capazes, grande poder de processamento de dados e energia, garantem especialistas em internet.
A Nokia Siemens Networks proveu o Irã com equipamentos no ano passado, dentro do conceito internacionalmente aceito de "lawful intercept", afirmou Roome. A interceptação de dados para fins de combate ao terrorismo, pornografia infantil, tráfico de drogas e outras atividades criminosas exercidas pela internet é algo que muitas, senão todas as companhias de telecomunicação, possuem, afirmou o porta-voz.
O centro de monitoramento que a Nokia Siemens Networks vendeu ao Irã é descrito no catálogo da empresa como capaz de “monitorar e interceptar todos os tipos de comunicação por voz ou dados em todas as redes”. A joint venture deixou o ramo dos equipamentos de monitoramento, classificados como “soluções inteligentes”, em fins de março, vendendo o negócio para a Perusa Partners Fund 1 LP, uma empresa de investimentos baseada em Munique. Segundo Roome, a companhia decidiu que o ramo não seria mais parte de seus negócios.
Os cinco clichês dos entusiastas do “clubinho douto”
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Ainda, o diploma
Ontem o site de notícias Midiamax publicou a entrevista que concedi para a jornalista Fernanda Brigatti, a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de derrubar a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Creio que por motivos técnicos a publicação da entrevista não contou com todos os links e itálicos originais. Portanto, para tornar o material mais rico em referências, reproduzo aqui as perguntas de Fernanda e as minhas respostas.Para começar, gostaria que você relatasse há quantos anos é jornalista e qual sua formação.
Tenho 21 anos de profissão, iniciados em 1988, pelas mãos do jornalista Luiz Paulo Coutinho (Jornal do Brasil), precursor do jornalismo comunitário que floresceu na Barra da Tijuca (RJ) nas décadas de 80 e 90, do qual participei ativamente. Nos anos que se seguiram passei por todos os nichos do Jornalismo. Fui repórter de Geral, Polícia e Esportes em veículos de bairro e em diários cariocas, editei meus próprios jornais e revistas, fiz assessoria de imprensa. Mudei-me para Campo Grande (MS) em 2000 e aqui participei das equipes que fundaram dois jornais diários da capital (Diário do Pantanal e O Estado de Mato Grosso do Sul), onde atuei como repórter e editor; passei pelo site de notícias Midiamax e pelo semanário A Crítica, trabalhei na TV Brasil Pantanal (antiga TVE) e em secretarias estaduais, assessorei associações, empresas, políticos e o legislativo campo-grandenses. Hoje atuo na assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Campo Grande. Em 1988 ingressei no curso de Jornalismo da antiga Faculdade da Cidade (hoje UniverCidade), no Rio de Janeiro, onde cursei até o sétimo período, quando, por problemas particulares, precisei abandonar os estudos. Nesta época eu já trabalhava na área e nunca mais parei. Em 2006, já em MS, resolvi concluir o curso e ingressei na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde cursei o sétimo e o oitavo períodos. Ainda faltavam algumas matérias que haviam surgido na grade curricular após uma lacuna de quase 20 anos entre minha primeira experiência na Faculdade da Cidade e a retomada dos estudos. Estas, cursei de forma orientada. Concluí o curso em janeiro.
À sua formação profissional, a universidade foi fundamental?
Penso que o estudo é fundamental para qualquer pessoa. No entanto, estudo não é, necessariamente, apenas, o que aprendemos nas salas de aula. O hábito da leitura, a curiosidade sobre o mundo e sobre como o homem caminhou para a contemporaneidade são, também, formas de obter conhecimentos tão ou mais importantes do que se pode aprender formalmente. Não digo que o curso de Jornalismo não tenha agregado valores na minha formação pessoal. Mas não posso dizer, também, que foi ele (o curso) que me fez jornalista. Portanto, não, não foi fundamental na minha formação profissional.
Você acredita que a não obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão representa em uma noção de que o ensino superior é dispensável? Para você, pessoalmente, é isso que significa?
De forma alguma. O ensino é fundamental. Desde o início, e ainda agora, este debate foi poluído com falsos conceitos. Em nenhum momento defendeu-se que o curso superior de Jornalismo era algo desnecessário. O que se defendia é que ele (o curso) não seria a “única forma de aferir se uma pessoa teria ou não condições de exercer a profissão”. E há uma diferença gritante entre as duas coisas. A imensa maioria dos grandes jornalistas que construíram esta profissão pelo mundo não passaram pelas universidades. Eles são a prova de que o curso superior não é “essencial” para definir se alguém tem ou não condições de ser um jornalista. No entanto, nos países civilizados – onde o diploma não é condição para o exercício do Jornalismo e, ainda assim, se pratica um Jornalismo tão bom, ou melhor, que o nosso – as universidades oferecem o curso de Jornalismo. Uma coisa não exclui a outra. Na Argentina e nos Estados Unidos, por exemplo, onde o diploma não é exigência para o exercício do Jornalismo, as salas de aula dos cursos de Jornalismo estão cheias. Diferente do que ocorre no Brasil, nestes países – e em muitos outros - os cursos superiores de Jornalismo são um diferencial na formação de profissionais e não fábricas de diploma como ocorre no Brasil (salvo honrosas exceções). É inconcebível ouvir de um jornalista recém-formado argentino, alemão ou norte-americano o que temos ouvido aqui. Coisas como “Com a não exigência do diploma perdi quatro anos de vida”, ou “Meu diploma não vale mais nada, pois agora qualquer um vai poder ser jornalista”. Balela. Gente muito mais capacitada que eu tem dito a mesma coisa. Para não me estender, indico a leitura do artigo “O fim do diploma e o começo de outro jornalismo”, do jornalista Alec Duarte, professor do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Assunção (Unifai), de São Paulo-SP.
A história do jornalismo no Brasil registra grandes nomes que jamais passaram pela academia e, no entanto, são os que embelezam a memória da profissão. Ainda é possível que surja nos jornais, nos sites, nos blogs, gente que exerça a profissão por aptidão e com o mesmo rigor do profissional diplomado?
Acho que o futuro do Jornalismo, de um Jornalismo fiel ao que a profissão tem de mais belo – a busca da informação como fator de transformação social -, está para ser construído a partir das novas ferramentas que estão, ainda, sendo desenvolvidas por meio da internet. É neste novo ambiente que surgirão novos valores do Jornalismo, com ou sem diploma. Penso que a grande mídia está vivendo uma crise de credibilidade sem precedentes. Como acreditar no que é dito em um jornal, na tevê, nas rádios, nos sites de notícia se a informação é, na verdade, uma mercadoria? O jornalista, um peão neste intrincado jogo, é obrigado a se adaptar a estas regras. Ele tem contas para pagar, família para sustentar. O jornalista Dante Filho disse algo muito sério em recente artigo publicado aqui no Midiamax: “Quando o jornal (ou o jornalista) é corrupto ele abandona a comunidade e só pensa em seu umbigo. Quando ele é voluntarista e acredita que seu papel é salvar o mundo corre o risco de viver de migalhas, acreditando em moinhos de vento. O mundo é cruel. Não há situação confortável para quem decide se sustentar entre o clero e o Estado.”. Ele resume em poucas palavras o dilema do jornalista na atualidade. Por isso, aposto nestas novas ferramentas e em um Jornalismo de menor porte estrutural, focado na comunidade. Experiências neste sentido estão engatinhando em alguns lugares do planeta. Entre as propostas já em andamento está o jornalismo representativo, preconizado pelo professor Leonard Witt – da Kennesaw State University – e o jornalismo financiado (crowdfunding journalism), defendido por David Cohn. Ambos propõem um modelo no qual jornalistas sejam financiados diretamente por parcelas da população para desenvolverem pautas do interesse dessas comunidades. Escrevi sobre este tema recentemente, no artigo “Um financiamento público para o Jornalismo?”.
A Fenaj considerou a decisão do STF um retrocesso e uma demonstração do atrelamento do supremo “ao baronato” que controla a imprensa. Os termos dos votos dos ministros, o entendimento deles sobre a atuação do jornalista e as comparações com outras profissões foram os principais termos de indignação nas manifestações oficiais. Como você, que atua na área, enxergou essa questão, e, ainda o que é histeria e o que é análise crítica?
Pode-se discordar de alguns aspectos utilizados pelos ministros – em especial pelo relator, mas eles não desqualificam a decisão, propriamente dita. Penso que a decisão do STF teve como base a impossibilidade de a Fenaj sustentar as teses com as quais objetivava a manutenção da exigência do diploma.
Diziam, por exemplo, que "A não obrigatoriedade do diploma iria aviltar o mercado de trabalho possibilitando que qualquer um possa exercer a profissão". Se isso fosse verdade o problema já estaria ocorrendo, visto que, antes mesmo da decisão do STF, qualquer cidadão podia ir a Delegacia Regional de Trabalho e solicitar um registro precário de jornalista. No entanto, não houve nenhuma modificação no mercado de trabalho diante desta realidade, pois, na verdade, o filtro profissional é feito pelo próprio mercado. O que avilta a profissão é a reserva de mercado tornada possível com a exigência do diploma, que fez proliferar os cursos de jornalismo, que despejam anualmente um contingente que o mercado de trabalho não consegue absorver, mas que ajuda a Fenaj e os sindicatos a arrecadarem taxas de emissão de carteiras e até mensalidades de desempregados.
Vale citar que em junho de 2005 havia 35.322 jornalistas com carteira assinada no Brasil. Nesse mesmo ano, foram diplomados 28.185 alunos pelos nossos 497 cursos superiores em jornalismo, nos quais ingressaram 47.390 alunos. Supondo por baixo que os contratados pela CLT sejam um terço do total de profissionais em atividade, bastariam menos de quatro “fornadas” anuais para ocupar todo o mercado de trabalho. Na Itália, cuja população é um terço da brasileira, em 2005 havia 12 cursos de graduação em jornalismo. Espera-se que o fim da exigência do diploma enxugue este mercado obrigando as escolas de jornalismo a oferecer um ensino de alta qualidade.
Diziam também que "O jornalista diplomado é dotado de melhor formação técnica e ética para exercer a profissão". Esta noção é derrubada primeiramente pela existência de vários profissionais sem diploma e altamente qualificados atuando por todo o país e pelo mundo. Os que defendem esta tese fazem vista grossa ao crescente despreparo da massa de graduados despejada anualmente no mercado, isso sim uma ameaça para a ética e para a técnica jornalística.
Por fim, sustentavam que "Os defensores da não exigência do diploma confundem jornalismo com liberdade de expressão”. A idéia de que o principal argumento contra a obrigatoriedade do diploma é que ela ameaçaria a liberdade de opinião é falsa. Essa alegação equivocada foi amplamente utilizada em níveis vulgares de argumentação, mas, com o tempo, e graças a veículos como o Observatório da Imprensa – que incentivou o debate sobre o tema – esta idéia foi sistematicamente derrubada. Resumindo, o que estava em questão não é liberdade de expressão como a conhecemos, mas em um sentido muito mais amplo. Indico, para uma melhor compreensão deste aspecto, a leitura do artigo “A liberdade de expressão e o diploma de jornalismo”, do jornalista Maurício Tuffani.
Para esclarecer, é preciso dizer que o argumento central da tese que defendia a não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é que a formação superior específica em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos éticos e técnicos.
A tese sustenta que:
Em primeiro lugar falta razoabilidade a esta exigência, pois (1) “existem pessoas capacitadas para exercer o jornalismo sem serem graduadas em jornalismo”, (2) “existem pessoas graduadas em jornalismo e que não são capacitadas para exercer essa profissão” e, (3) “conseqüentemente, a graduação em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para a capacitação para o exercício dessa profissão”.
A verificação de 1. se dá pelo fato de existirem vários exemplos de pessoas capacitadas para exercer o jornalismo sem serem graduadas em jornalismo e pela constatação de diversos países não exigirem a formação superior específica para o exercício da profissão, e foi corroborada pela forma como diversos teóricos do jornalismo o definem como atividade que prescinde de formação superior específica. A verificação de 2. se deu principalmente pelos fatos de que o jornalismo exige vocação e de que não existe consenso sobre o conteúdo curricular mínimo dos cursos para assegurar a qualificação profissional; ela poderia ser verificada também pela má qualidade de muitos cursos, mas esse argumento pode ser aplicado aos cursos de todas as profissões.
Os jornalistas se dividiram entre os contrários, os favoráveis e um bom montante de desinteressados e até desinformados. Nas universidades, o debate foi morno, quase inexistente. Essa situação, ainda que em uma análise superficial, não é sintomática de um certo fracasso organizacional? ... uma incapacidade de comunicação e mobilização?
Concordo. Diante dos desafios que se colocam diante de nossa profissão, da necessidade de encontrarmos novos nichos de mercado, de reinventarmos parte de nossa práxis profissional, ver um sindicato erguendo como bandeira de luta uma causa anacrônica como a defesa da exigência do diploma para o exercício do Jornalismo é extremamente preocupante, mostra o quanto estas instituições estão agarradas ao velho, ao arcaico. Mas há um aspecto ainda menos nobre. Os sindicatos e grande parte da academia se omitiram deste debate ao se recusarem efetuá-lo dentro de regras civilizadas. Usaram e abusaram da desqualificação de seus antagonistas, venderam para uma massa de estudantes desinformados idéias contraditórias e baseadas em falsas premissas. Já falei sobre isso no artigo “Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?”.
Você vislumbra alguma mudança nas relações profissionais a partir dessa decisão? Esse retrocesso visto pela Fenaj, ele deve refletir nas redações? Ou mesmo no ensino?
O jornalista Marcelo Soares matou este tema no artigo “Se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas”, mas faço minhas as palavras de Alec Duarte sobre a reação de alguns jornalistas ao anúncio da decisão do STF, sobre o futuro dos cursos de Jornalismo e da profissão.
“... que triste constatar centenas de comentários de jornalistas diplomados tratando a questão meramente como ‘joguei quatro anos no lixo’ ou ‘e os R$ 60 mil que paguei pelo curso, como ficam?’. Sintomáticas, são frases que exemplificam porque o jornalismo está tão ruim. Quer dizer que desde sempre a questão foi tratada apenas como um trâmite, uma obrigação a se cumprir, como se a formação pessoal não contasse nada. Pois bem: é exatamente nesse aspecto (o da formação) que eu vejo um futuro auspicioso.
Afinal de contas, agora a formação prevalece sobre a imbecil reserva de mercado. E, para ser jornalista, você terá de se preparar de verdade. Não bastará cumprir (sabe-se lá em que nível) uma quarentena obrigatória de oito semestres para, ao final dela, chegar ao pote de ouro. A mudança atingirá a universidade justamente no momento em que uma comissão de notáveis discute mudanças no currículo da graduação. Essa reformulação precisa ser mais aprofundada agora que a formação e especialização serão a moeda corrente _sim, as empresas seguirão dando preferência a quem entende do assunto.
A diferença é que, agora, o portador do diploma não terá um passe para exercer automaticamente a profissão. Ou seja: a faculdade só poderá lhe fornecer informação, não o passe de papel. E as que vivem acenando com o passe, estas sim, estão seriamente ameaçadas.
Com a decisão do STF, preparar-se passou a ser o fim, não um incômodo entre aluno e salvo-conduto para trabalhar. Prevejo ainda uma enxurrada de cursos de especialização no que você puder imaginar (jornalismo esportivo, político, econômico, cultural, oficinas de reportagem, texto etc.). Aliás, já há vários projetos sendo preparados para 2010.
No quesito categoria profissional, o fim do diploma também traz consigo a oportunidade histórica de, finalmente, reunir os jornalistas numa categoria de verdade. Qualquer argumentação sobre o fim da obrigatoriedade precipitar contratações irregulares, jornadas extenuantes de trabalho, não pagamento de horas extras, condições precárias de trabalho e quetais não colam.
Tudo isso já existe hoje, no mundo real. E sob a égide do diploma. O que leva o patronato a tratar os jornalistas como subempregados é precisamente a ausência de um espírito coletivo.
Vejo a suposta fragilização da profissão, após a decisão do STF, por outro ângulo: o fim da reserva de mercado, e a possibilidade de ingresso no jornalismo de profissionais com outras experiências inclusive no trato com os patrões, dão a todos nós a chance imensa de estabelecer outro tipo de relação com o empregador _e, quem sabe, atingir a tão sonhada categoria que discurso nenhum de sindicato conseguiu forjar.
Quem se habituou a ser tratado como gado, como os jornalistas diplomados, ganha uma ótima perspectiva com a companhia, agora oficializada, de gente que não está acostumada a essas relações de trabalho tão podres que foram construídas com a conivência de quem (eu, inclusive) deveria ter protegido o exercício da profissão.
Restringir o acesso a ela, como já sabemos, não funcionou.”
Dá pra dizer quem ganha e quem perde com o fim da obrigatoriedade?
Ganha o Jornalismo, os jornalistas e a sociedade. A partir de agora, os cursos de Jornalismo que queiram sobreviver serão obrigados a oferecer qualidade, formação aprofundada, um diferencial, jogando para o mercado de trabalho gente realmente qualificada. Pessoas talentosas que optem por se dedicar a outros campos do conhecimento - importantes para a formação de um jornalista - como história, filosofia e sociologia poderão ingressar no Jornalismo sem amarras, aumentando a qualidade crítica da produção de informação, o que se refletirá diretamente na sociedade. Quem perde é o sindicalismo burro, que se agarra ao micro, ao corporativismo, perdendo o foco do macro, do que é, de fato, bom para a sociedade. Perdem também as fábricas de diploma, que jamais se preocuparam com a formação, encarando a educação apenas como comércio.
domingo, 21 de junho de 2009
Diploma: algumas leituras sobre o tema
“Creio que pouco ou quase nada vai mudar com o fim da obrigatoriedade do diploma. As empresas vão continuar contratando em sua maioria gente oriunda das faculdades de jornalismo, como o fazem as agências em relação aos formandos de publicidade. Como o colega deve saber, não existe obrigatoriedade de diploma para o exercício da atividade publicitária. Ou seja, os recém-formados não precisam queimar seus diplomas. Podem e devem, inclusive, usá-lo para tentar buscar um mestrado na área de comunicação. E ao fazê-lo poderiam pesquisar formas de ampliar a mídia livre, por exemplo.
Agora, algumas faculdades vão fechar. E só as melhores vão se manter. Qual o problema disso? Nenhum. Hoje há uma quantidade imensa de cursos de jornalismo que não formam pessoas nem com preparo técnico nem cultural para o exercício profissional. E até por isso, poucas pessoas formadas por eles tornam-se de fato jornalistas. Muitas acabam dirigindo-se para outras áreas de atividades e ficam com o diploma na gaveta. E com vergonha, inclusive, de dizer que curso fizeram por conta do imenso sentimento de frustração.”
Renato Rovái no artigo O tempo do fim da obrigatoriedade
“Muitos protestam por ter gasto dinheiro numa faculdade cujo diploma se tornou desnecessário, ou por ter perdido anos de sua vida no estudo. Estão errados: exercer o jornalismo exige conhecimento, não um canudo de papel com o nome escrito em letras góticas. Se a faculdade de jornalismo der este conhecimento, terá cumprido sua missão, terá dado retorno ao investimento de tempo e de dinheiro. Quem exerce dignamente a profissão de jornalista, com ou sem diploma, jornalista é.
Não é preciso reservar mercado para quem tiver condições de competir no mercado. O Fernando Gabeira jamais precisou de diploma; o Ricardo Kotscho também não. Para quem quiser ser um bom jornalista bastam os conhecimentos adquiridos dentro ou fora da faculdade. Quanto ao diploma, podem até esquecer-se de ir buscá-lo.”
Carlos Brickmann no artigo Muito barulho por nada
“Embora a exigência seja uma excentricidade brasileira, já que outros países não a tem, ela ajudou a elevar os padrões da profissão no país. No entanto, nos tempos atuais, a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação”
Eugênio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em reportagem de Ana Luiza Moulatlet
“A decisão do Supremo Tribunal Federal veio coroar um trabalho que começou na década de 80...”
“As novas mídias, como celular, e-mail e Twitter, entre outros, tornarão a informação cada vez mais livre. Isso causará uma transformação na linguagem. O mundo está cada vez mais visual”
Caio Túlio Costa, em reportagem de Cinthia Almeida
“Trata-se de uma vitória do jornalismo e da democracia brasileira, reafirmando as teses da liberdade de expressão e do livre pensamento, garantidas pela Constituição Federal.”
“O fim da exigência do diploma acaba com uma barreira corporativista tacanha, levantada por um sindicalismo medíocre, e não significa em absoluto o fim das escolas de jornalismo. De fato, o fim da exigência não impedirá que muitos jovens continuem cursando jornalismo para ingressar na profissão. Atualmente existem excelentes faculdades de Publicidade e Marketing, embora o diploma não seja obrigatório para o exercício da profissão. Muitos profissionais que se destacam neste meio são recrutados nas universidades. Por outro lado, gente com talento especial e até sem educação formal alguma poderá exercer o jornalismo sem os constrangimentos dos defensores de um canudo que no fundo só servia para a manutenção de seus próprios feudos no meio sindical. Ou alguém imagina, em sã consciência, um sindicato dos escritores lutando pela exigência de diploma específico para a profissão de escritor; um sindicato dos atores tentando impor a frequência em escolas de arte dramática para que seus pares subam nos palcos?”
Luiz Antonio Magalhães, no artigo Uma vitória da lógica e da democracia
“Aí diz um: "Mas estudei por nada? O que faço com o meu diploma agora?" Bem, se foi "por nada", está demonstrada a inutilidade do curso, e o STF não poderia ter mantido uma excrescência constitucional apenas para não evidenciar a obsolescência das faculdades. Ademais, canudo ensina alguém a escrever? A apurar? O sujeito o coloca ao lado do teclado, estabelecendo com ele, sei lá, uma relação mística ou fetichista? Mais: o fim da exigência do diploma tornou menos competentes os competentes diplomados? Quem, afinal de contas, perdeu o quê?
Vamos parar com essa bobagem corporativista. Não é por acaso que os grandes defensores do diploma estejam concentrados hoje da Fenaj e na ABI. Há, nas duas entidades, uma gigantesca inflação de "jornalistas de carteirinha" que nunca pisaram numa redação. O que isso significa? Pertencem ao cartório do jornalismo, mas jornalistas, de fato, não são. Embora digam defender a "catchiguria".”
Reinaldo Azevedo, no artigo Talento e dicas de redação
“A decisão do STF, que por 8 votos a 1 optou ontem pelo fim da exigência do diploma, é histórica e abre caminho para que, enfim, o ensino de jornalismo melhore e seus profissionais passem a constituir uma categoria _o que jamais existiu, com ou sem obrigatoriedade de canudo.”
“Afinal de contas, agora a formação prevalece sobre a imbecil reserva de mercado. E, para ser jornalista, você terá de se preparar de verdade. Não bastará cumprir (sabe-se lá em que nível) uma quarentena obrigatória de oito semestres para, ao final dela, chegar ao pote de ouro.”
Alec Duarte, jornalista e professor do curso de Comunicação Social do Unifai (Centro Universitário Assunção), de São Paulo-SP, no artigo O fim do diploma e o começo de outro jornalismo.
“Jornalismo, perdoem os companheiros de profissão que discordam, é uma forma de exercício da liberdade de expressão. É um direito de todo cidadão, não pode ser restrito. E, em tempos de novas mídias que põem nas mãos de qualquer um os meios de publicar e distribuir informação e opinião, a lei era impossível de funcionar.”
O jornalista Pdro Doria, em nota curta em seu blog.
“Tenho plena convicção de que a atividade jornalística não deve ser monopólio de quem é diplomado, podendo ser realizada por quem não passou por uma cadeira de faculdade. Conheci, andando pelo interior desse Brasil, muita gente que nunca viu um diploma, mas que é mais jornalista com um microfone de uma rádio comunitária na mão ou fazendo um pequeno jornal mural do que alguns que passaram quatro anos nos bancos de universidades. Refletir sobre sua própria prática, dentro de uma ética específica, sabendo o que significa o papel de intermediar a informação na sociedade, ter a consciência dos direitos e deveres atrelados à liberdade de expressão são desafios que não são aprendidos necessariamente na academia.”
O jornalista Leonardo Sakamoto, no artigo Jornalistas, diplomas e a coletividade de Gilmar Mendes
“A queda da obrigatoriedade não proíbe o funcionamento das faculdades e nem torna ilegais os diplomas já expedidos e a expedir. O diploma não "foi derrubado" nem "está extinto", como dizem alguns comentários.
Estudar jornalismo pode ser bastante útil para se tornar um jornalista, se o curso for bom. Algumas empresas continuarão contratando apenas formados, e é razoável. A desobrigação só tornará inúteis os quatro anos de estudo de jornalismo em dois casos:
1) Quando sua faculdade é muito ruim e nada que você aprenda nela vai acrescentar absolutamente coisa alguma ao que você já traz de casa ou pode aprender na prática. Nesse caso, é uma boa oportunidade pra mudar pra uma melhor ou mudar de curso. Ou largar de vez e procurar um trampo (emprego é raridade hoje em dia) em jornalismo.
2) Quando você quer comprar um canudo em prestações, e não refinar sua formação. Nesse caso, lamento, mas nem se o diploma continuasse obrigatório você conseguiria um lugar ao sol no mercado. Largue a faculdade e aproveite o tempo extra para estudar para algum concurso público. Estabilidade garantida, fim de semana, feriados, férias, licenças, aposentadoria, etc. Para você, será muito melhor do que o cenário complexo de incertezas que o jornalismo enfrenta hoje, e poupará seus pais de decepções futuras.
De qualquer forma, acho que vai ser uma bela oportunidade para as faculdades mostrarem na prática para que servem. Um bom começo seria melhorar MUITO o que ensinam, refinar MUITO o pensamento que se produz sobre jornalismo lá dentro.”
O jornalista Marcelo Soares, no artigo Caiu a obrigatoriedade do diploma. E agora?
“O aperfeiçoamento do jornalismo praticado no Brasil não depende de tutelas legais e autoritárias, mas, ao contrário, da contribuição dos talentos e das vocações de todos os que, a despeito de sua formação escolar específica, sejam capazes de trazer à sociedade informações, análises e opiniões mais aprofundadas, mais claras e mais abrangentes.”
Editorial do jornal Folha de S. Paulo na última sexta-feira, 19.
“O Supremo Tribunal Federal varreu da legislação brasileira mais uma herança da ditadura militar: a obrigatoriedade do diploma de jornalista para quem exerce a profissão. Ao defender o fim dessa excrescência, o relator do caso, ministro Gilmar Mendes, disse que ela atentava contra a liberdade de expressão garantida pela Constituição Federal a todos os cidadãos. "Os jornalistas são aquelas pessoas que se dedicam profissionalmente ao exercício pleno da liberdade de expressão. O jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensados e tratados de forma separada", afirmou o ministro. Além de ferir o direito constitucional, já que impedia pessoas formadas apenas em outra área de manifestar seu conhecimento e pensamento por meio da atividade jornalística, a exigência teve o seu ridículo exposto por uma comparação brilhante de Gilmar Mendes: "Um excelente chef de cozinha certamente poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima o estado a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área".
A obrigatoriedade do diploma foi impingida em 1969, auge do regime de exceção instalado cinco anos antes, não para melhorar o jornalismo brasileiro, mas para controlar o acesso às redações de repórteres, editores e fotógrafos que eram considerados ameaçadores aos generais. Com a redemocratização do país, a norma passou a servir de instrumento de pressão política de sindicatos sobre jornais, revistas e emissoras independentes. O fim da obrigatoriedade alinha o Brasil com as nações onde o jornalismo abriga, sem embaraços de nenhuma espécie, todos aqueles que encontraram no ambiente dos meios de comunicação a melhor maneira de dividir o que aprenderam nos campos da economia, da ciência, do direito, das artes, da moda e do esporte. Dessa forma, ganham em qualidade redações, leitores e espectadores. Poderão ganhar também as faculdades de jornalismo, que terão de rever currículos, a fim de formar alunos mais bem preparados para uma competição que se afigura mais dura.”
Editorial da revista Veja desta semana
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Boas análises sobre o Jornalismo
“Mas nem tudo são espinhos, meus amigos. Mantenham os diplomas pendurados nas paredes. Não os joguem no lixo. Eles podem ser elementos motivacionais. Eles podem, finalmente, tirá-los da cômoda situação que os levavam imaginar que bastava ter um canudo nas mãos para ter o mundo a seus pés. É bom começar a ralar, ler mais, exercer com maior esforço o senso crítico, combater com maior veemência os bandidos das redações (até porque estes ganharam espaço agradando o patronato com mimos mil).”
“Quem sabe agora possamos dar um pouco mais de racionalidade ao debate e pensar em cursos suplementares de jornalismo com dois anos de duração (no máximo) para aqueles que querem exercer a profissão. É simples: o sujeito que se formou em direito, engenharia, economia, odontologia etc., faz uma espécie de especialização para se tornar jornalista.”
Muito boa, também, a análise do jornalista (e professor de Jornalismo) Alec Duarte sobre o futuro dos cursos de Jornalismo e da profissão.
"Comecemos pela repercussão: que triste constatar centenas de comentários de jornalistas diplomados tratando a questão meramente como “joguei quatro anos no lixo” ou “e os R$ 60 mil que paguei pelo curso, como ficam?. Sintomáticas, são frases que exemplificam porque o jornalismo está tão ruim. Quer dizer que desde sempre a questão foi tratada apenas como um trâmite, uma obrigação a se cumprir, como se a formação pessoal não contasse nada."
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Caiu a exigência do diploma: viva o Jornalismo
Caiu. O Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de derrubar definitivamente a exigência do diploma para o exercício do Jornalismo no Brasil. Finalmente nos afastamos de países como Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia – que exigem o diploma – e nos aproximamos de Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e vários outros países onde – mesmo sem exigir diploma para o exercício da profissão - se faz um Jornalismo de tão boa (ou melhor) qualidade que o nosso.
Agora, os nossos cursos superiores de Jornalismo terão que ser o que eles são nestes países: um diferencial na formação de profissionais e não uma fábrica de diplomas, como ocorre hoje (com honrosas exceções). Estas instituições de ensino terão de se adequar a uma nova realidade e transformar os quatros anos que um jovem passa nas salas de aula em um processo que realmente colabore para a formação de um profissional de imprensa capacitado, coisa que nem de longe ocorre atualmente.
Isso já havia sido apontado por muita gente da área, embora a Fenaj e a academia tenham optado por boicotar o debate sobre o tema desde o início usando para isso falsas premissas e a vergonhosa estratégia da desqualificação de seus antagonistas e da superficialidade dos argumentos.
Veja o que disse o jornalista Luiz Garcia em julho passado no artigo “Tiro na pata”.
“Uma conseqüência inevitável do fim do diploma de jornalista obrigatório seria uma enxugada vigorosa na quantidade de faculdades privadas de jornalismo. A exigência do diploma específico fez surgir no Brasil uma quantidade de cursos fáceis para quem pode pagar, que jogam anualmente no mercado uma quantidade de profissionais com mínimas possibilidades de emprego. Claro, há instituições de alto nível, como a nossa [Pontifícia] Universidade Católica. Mas não faltam arapucas, que só prosperam graças à exigência do diploma em comunicação”.
Apesar da gritaria dos sindicalistas, de parte da academia e da massa de desinformados com canudo debaixo do braço (que compõe grande parte da força de trabalho do Jornalismo no país) a queda da exigência do diploma não vai tornar o nosso Jornalismo antiético, não vai “precarizar” a profissão nem inundar as redações com gente incapaz de exercer este nobre ofício.
O grande impacto, portanto, se dará sobre a formação profissional, que precisará se adequar a uma nova realidade que possibilite dotar as próximas gerações de jornalistas de capacidade intelectual para assumir a difícil missão de bem informar, de visão empreendedora para criar postos de trabalho além da grande mídia e das malfadadas assessorias de imprensa – que tudo fazem, menos Jornalismo propriamente dito -, de curiosidade para explorar as novas fronteiras da informação – advindas da internet – de forma profissional, criativa e rentável.
Professor de Jornalismo da Universidade de Carolina do Norte em Chapell Hill e autor dos livros Precision Journalism e The Vanishing Newspaper, Philip Meyer resume a ópera.
“O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão”.
Pois é...
Leia mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?
STF deve julgar hoje obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo
A TV Justiça (canal 53-UHF, em Brasília; SKY, canal 117) e a Rádio Justiça (104.7 FM, em Brasília) transmitem os julgamentos ao vivo, inclusive pela internet (veja como sintonizar a TV Justiça nos estados). Horário: a partir das 14h. O sinal da TV Justiça está liberado para as emissoras de TV interessadas.
Leia mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
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- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?
Petroblog no OI
segunda-feira, 15 de junho de 2009
STF deve julgar diploma nesta semana
Lei mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
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- Priscila, Greenpeace e o canudo
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sábado, 13 de junho de 2009
Para onde caminha este tal Jornalismo?
O raciocínio é do jornalista Carlos Castilho, em artigo publicado quarta-feira no Observatório da Imprensa. O caminho é o mesmo traçado por Luiz Carlos Azenha, para quem os veículos de comunicação tradicionais não encontraram ainda formas de interagir com esta ruptura causada pelas novas ferramentas de informação. "Posso especular que os jornais se sentem incomodados com uma nova dinâmica que não os favorece. Os jornais já chegam claramente envelhecidos às bancas. Como contornar isso? Com notícias exclusivas. Denúncias extraordinárias. Isso pressupõe, no entanto, que todos os atores sociais continuem aceitando o jornalismo como era: o monopólio da informação controlado por algumas empresas que vendem informação. A internet rompe essa lógica.”.
Também é o que sustenta Mariana Martins em texto publicado no Observatório do Direito à Comunicação (dia 10). “As novas ferramentas propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico, como portais eletrônicos, blogs e redes sociais, vêm mudando também ao longo dos anos o próprio caráter da informação jornalística, da função dos veículos tradicionais e da relação entre a fonte primária da informação e o público, como no caso da Petrobras.”.
No artigo “Nova descoberta da empresa abala mídia”, o jornalista Marcelo Salles diz o seguinte: “Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobras diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobras abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.”.
Estas leituras apontam para a necessidade de o Jornalismo reconstruir paradigmas muito arraigados que, em parte, são responsáveis pela sensação de superação que hoje permeia a prática jornalística tradicional. Diante do turbilhão provocado pelas ferramentas de informação interativa que se proliferam pela rede, o Jornalismo se agarra a velhas fórmulas e, para manter-se à tona, opta por um confronto ao qual já entra derrotado. O episódio Petroblog é um sinal do que está por vir.
Luiz Nassif, no artigo Avanço no jornalismo: “Hoje em dia, não há transparência na forma como são tratadas as notícias, especialmente aquelas com viés partidário. O jornalista detém uma informação e se julga no direito de dar o tratamento que bem entender, o enfoque que desejar, selecionar as informações que melhor se adaptem à sua tese. A possibilidade do leitor ter acesso a todas as informações fornecidas é um ganho excepcional no direito constitucional de ser bem informado.”.
O jornalista Leandro Fortes sustenta que: “As reações ‘conspirativas’ – neologismo cunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha para unir conspiração com mídia corporativa – ao blog da Petrobras são, em tudo, emblemáticas. E não têm nada a ver com ‘vazamento’ das perguntas e informações enviadas por e-mail à empresa. Têm a ver com a perda de poder das redações e com a necessidade de se estabelecer outros paradigmas para o jornalismo. Isso inclui o conceito de ‘furo’, que a vaidade dos jornalistas transformou em coisa mais importante do que o dever de bem informar – de maneira mais ampla e correta possível – a sociedade na qual está inserido.”.
Parece que, ao olharmos a profissão diante dos novos panoramas aos quais ela tenta se adaptar, nos deparamos com este limiar, esta sensação de que algo está para mudar radicalmente na prática jornalística. No artigo “Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar” – que também foi disponibilizado na quarta - apontei as mesmas armadilhas que os demais jornalistas citados anteriormente: “Dizer que este novo cenário colabora para inibir os jornalistas e jornalões a desenvolverem e bancarem material de qualidade é dizer que eles se importam mais com o furo do que com a própria informação (reflexão propositalmente ingênua de minha parte) e se for assim (mantendo a ingenuidade), trata-se de mais um sinal de que o Jornalismo precisa se reinventar.”.
Leia mais sobre o tema:
- Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar
- Tem alguma mentira no blog da Petrobras?
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar
Independente de que haja ou não irregularidades na empresa, ou que ela tenha respondido as perguntas a contento ou não, a reação da imprensa merece uma análise mais específica.
Ao se antecipar aos veículos de comunicação, divulgando as perguntas feitas pelos jornalistas e as respectivas respostas a elas, a Petrobras demole uma instituição que move grande parte do Jornalismo: o furo de reportagem. Sem o sigilo por parte da empresa, fica impossível averiguar assuntos sem alertar a concorrência. Terror nas redações...
A reação dos jornalões foi imediata. O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão – apoiados pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) – sustentaram que a estratégia da Petrobras atenta contra a liberdade de imprensa, fere o que chamam de direito autoral sobre as perguntas dos jornalistas e rompe um suposto compromisso de confidencialidade entre a fonte e o veículo de imprensa.
O matemático e filósofo Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, desmontou algumas destas premissas ao dizer que este compromisso de confidencialidade “nunca existiu” e que “o que existe é o princípio de resguardo da fonte por parte de jornalistas.”. “Não existe dever subjetivo da fonte de resguardar o jornalista.”, completa. A partir deste raciocínio simples, caem por terra as demais suposições dos jornalões e da ANJ.
Gente séria - como os jornalistas Marcelo Soares e Sergio Leo, além do próprio Abramo - apontou para os perigos que a prática da Petrobras trará ao Jornalismo, em especial no que se refere à apuração do contraditório. O que farão os jornalistas que apuram um tema espinhoso e que precisam ouvir os alvos de acusações periclitantes se estes alvos resolverem divulgar as suas perguntas e as respectivas respostas antes de as matérias serem publicadas? O consenso é que jornalistas e jornais serão desencorajados a escarafunchar assuntos polêmicos.
Sergio Leo resumiu o temor em seu blog: “Um dos produtos fundamentais para a imprensa é a informação exclusiva, o furo de reportagem. Em geral, exige investimento, de tempo, experiência, dinheiro, expectativas. O furo atrai leitores, e dá prêmios jornalísticos. Muitas vezes esse furo é resultado de jornalismo investigativo, e, do outro lado, há um acusado, alguém sob suspeita. E, ao lado, um monte de concorrentes atrás da mesma informação que você. Evidentemente, muitos furos partem de interesses escusos, gente com interesses contrariados; por isso você tem sempre de checar a informação que recebe. De preferência, com o acusado.”.
Na reflexão “O blog da Petrobras e o desespero da mídia”, no entanto, Idelber Avelar arranhou a ferida, expondo a crítica à grande imprensa, que está por trás da estratégia da Petrobras: “É óbvio que não há nada ilegal no que fez a Petrobras. Ela simplesmente revelou quais eram as perguntas feitas e apresentou as suas respostas. Isso, no Brasil de hoje, é motivo de compreensível júbilo para a maioria e desespero agônico para os últimos defensores que montam guarda às portas da moribunda fábrica de linguiças.”.
Dizer que este novo cenário colabora para inibir os jornalistas e jornalões a desenvolverem e bancarem material de qualidade é dizer que eles se importam mais com o furo do que com a própria informação (reflexão propositalmente ingênua de minha parte) e se for assim (mantendo a ingenuidade), trata-se de mais um sinal de que o Jornalismo precisa se reinventar.
As jornalistas e pesquisadoras Cremilda Medina e Marcia Blasques apontaram a necessidade de explorar estas novas fronteiras: “A publicação das entrevistas pelo petroblog antes da finalização da reportagem não diminui, dificulta ou altera o trabalho e a responsabilidade do jornalista. É só lembrar que a identidade do repórter – seja ele do meio impresso, eletrônico ou digital – vai muito além da mera divulgação dos fatos: o fazer jornalístico passa pela questão da autoria da reportagem, ou seja, pela capacidade de criar narrativas que articulam os significados da realidade vocalizados por fontes diversas. O papel intransferível do jornalismo se consagra quando os profissionais são capazes de apurar informações, muitas vezes ocultadas, colher interpretações e só então compor a reportagem digna da autoria.”.
O fato é que, diante da possibilidade que a internet oferece de comunicação imediata entre a “fonte” e o “público”, o próprio processo de criação no Jornalismo está se transformando. A postura adotada pela Petrobras atinge diretamente o modus operandi do Jornalismo e isso é problema nosso (dos jornalistas), não da Petrobras. Da mesma forma, a relação entre jornalistas e assessores de imprensa deveria ser melhor esclarecida. A mistura entre os dois ofícios faz com que se espere de ambos posturas éticas idênticas similares, o que é impossível.
De nada adianta apelar para argumentos estapafúrdios - como o conceito de que a fonte deve sigilo ao entrevistador - ou acusar a empresa de ameaçar a liberdade de imprensa. Se esta mudança de postura vai gerar situações constrangedoras e inesperadas, cabe ao Jornalismo encontrar novas fórmulas de atuação.
-
OBS: A Petrobras decidiu nesta tarde que não vai mais publicar em seu blog as perguntas feitas por jornalistas, e as respostas dadas pela empresa, um dia antes de as reportagens serem publicadas. O material passará a ser publicado no blog à meia-noite, para evitar que publicações que concorrem entre si tomem conhecimento antecipado das reportagens que serão publicadas por outros veículos.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Tem alguma mentira no blog da Petrobras?
Mais claro impossível. A empresa não confia na edição das respostas dada aos jornalistas e posteriormente publicadas e se resguarda publicando a íntegra das perguntas e das respostas em seu blog assim que elas (as perguntas) são enviadas aos jornalistas.
Os jornalões alopraram.
O Estadão quis saber se a medida era ilegal, O Globo esperneou, a Folha bateu o pé e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) fez beicinho. Acontece que, argumento que é bom, necas.
Entre as sandices elencadas para tentar transformar a estratégia da Petrobras em um atentado contra a liberdade de imprensa algumas se destacam pela criatividade. Uma delas é o conceito de pergunta jornalística em off, “a fonte que deve sigilo ao entrevistador”, como resumiu Idelber Avelar lá no Biscoito.
“É a cara-de-pau e a cretinice dos oligopólios de mídia elevadas à última potência. As instituições enxovalhadas pela sua manipulação lhes devem, além do mais, sigilo sobre quais foram as perguntas feitas. Já não basta acusá-las de ‘censoras’ quando elas se insurgem contra a mentirada. Elas devem, agora, aceitar falar só pelas paráfrases criminosamente mentirosas dos jornalões. Ou pelo menos silenciar até que estas tenham aparecido.”, espeta Avelar.
Outra parvalhice - emitida pelo Globo – é a idéia de que, ao divulgar as perguntas e respostas antes da publicação das reportagens, o blog “viola o sigilo dos órgãos de imprensa”.
“É a comprovação de que está se encerrando a era das informações seletivas para compor reportagens. Não restará outra alternativa senão fazer reportagens tecnicamente bem feitas, baseadas em fatos não questionáveis. Em suma, praticar jornalismo. E isso é terrível!”, aguilhoa Luis Nassif.
O editorial publicado hoje por O Globo foi especialmente obtuso. Com o título “Ataque à imprensa”, o diário carioca afirma que a Petrobras tenta “acuar O GLOBO, a ‘Folha de S. Paulo’ e ‘O Estado de S. Paulo’, jornais que, por dever de ofício, acompanham com a atenção devida as evidências de desmandos na administração da companhia” usando a terrível estratégia de “publicar em um blog da empresa as perguntas encaminhadas por repórteres dos jornais e respectivas respostas”. Para piorar a emenda, afirma que “as perguntas, encaminhadas por escrito, são de propriedade do jornalista e do veículo a que ele representa”.
E não para por aí. O editorial diz ainda que, por meio do blog, a Petrobras “desrespeita profissionais e atenta contra a liberdade de imprensa, ao violar o direito da sociedade de ser informada, sem limitações”.
Ora bolas... A Petrobras atenta contra a liberdade de imprensa ao divulgar as perguntas a ela endereçadas e as respectivas respostas?
Pedro Doria coloca um freio na fanfarronice dizendo que “antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético”. Azenha, por sua vez, enumera os motivos que levaram os jornalões a um clima de histeria coletiva.
Mas é Túlio Vianna que resume a ópera: “Se o jornalista quer confidencialidade em suas conversas, melhor procurar um psicoterapeuta. Exigir confidencialidade das suas fontes é, não só paradoxal, mas um claro manifesto de sua incompetência”.
Eu, no meio desta tempestade, quero saber apenas o seguinte: tem alguma mentira nas respostas que a Petrobras publica em seu blog?
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O próspero e macabro sorriso chinês
Hoje faz 20 anos que o totalitarismo chinês assassinou cerca de 2600 jovens que protestavam por liberdades civis e pelo direito de expor livremente suas opiniões e sentimentos. Este sonho juvenil foi esmagado pela intolerância comandada por anacronismos humanos liderados por Deng Xiaoping. Hoje, a China continua um país repressor, onde os direitos civis e liberdades primordiais são negados aos seus cidadãos, embrutecidos por uma tênue visão de progresso econômico (nas cidades) e pela mão pesada do Estado (no campo).
Passadas duas décadas, a China é apontada como exemplo de desenvolvimento. Não é difícil nos depararmos com reportagens prontas a enaltecer o regime chinês e as benesses econômicas que ele propiciou para milhões de pessoas, retirando-as da linha de pobreza e inserindo-as em patamares sociais mais aceitáveis. Mas qual o preço deste avanço econômico?
Um dos jovens que liderou os protestos de 1989 – e que encabeçou a grave de fome que chamou a atenção do mundo para o movimento - Wuer Kaixi (que hoje vive em Taiwan) foi entrevistado pela revista eletrônica Guernica. Ele considera que o movimento ocorrido vinte anos atrás foi o pontapé inicial para a liberdade econômica que hoje permeia a sociedade chinesa, uma liberdade que, segundo ele, foi fruto de uma barganha feita pelo Governo Chinês junto à população do país.
“Depois de 1989, o Partido Comunista Chinês decidiu fazer um acordo com o povo – de ter sua cooperação política em troca de liberdade econômica. E esse foi um péssimo negócio, pois estas liberdades, política e econômica, já eram um direito do povo. Mesmo assim o acordo funcionou. Os chineses toparam e o Partido Comunista se retirou da vida diária da população. Assim, não há mais um estado ideológico e esta é a única maneira de manter o povo chinês diante de alguma liberdade, ainda que seja apenas econômica”, afirmou Kaixi.
O que se esconde por detrás do “espetáculo chinês”, é uma face amedrontadora que muitas vezes nos recusamos a encarar.
Nos recusamos a questionar os motivos pelos quais dos 3.220 cidadãos chineses com um patrimônio pessoal de mais de US$ 13 milhões, 2.932 são filhos de funcionários de alto escalão do Partido Comunista. Não perguntamos por que de todas as posições-chave nos cinco ramos da economia chinesa - finanças, comércio exterior, grandes projetos imobiliários, grandes projetos de engenharia e ações -, de 85% a 90% estão nas mãos de filhos de membros importantes do PC. Nos calamos sobre os campos de trabalho forçado em que as pessoas desaparecem sem julgamento e sobre a tortura perpetrada pelo pessoal dos órgãos de segurança. Baixamos a cabeça e seguimos rumo ao brilho do ouro ignorando que o sistema político chinês é responsável por 30 milhões de mortes por fome durante o Grande Salto Adiante e por 750 mil a 1 milhão de assassinatos políticos durante a Revolução Cultural.
Para as potencias ocidentais, cada vez mais interdependentes do que a China lhe provê e consome, o melhor é fazer vista grossa para uma realidade funesta que nos mostra que cada novo elemento de reforma ou transição na sociedade chinesa faz com que os membros do partido enriquecem ainda mais, que nos aponta que a transformação de propriedade rural em urbana na China bem poderia ser classificada como "pilhagem sistemática" já que os membros regionais do partido investem pesadamente nas minas de carvão - pequenas e inseguras - que deveriam estar fechando, sem que se saiba ao menos como adquiriram sua participação nessas operações.
“Falamos de ‘governo’ chinês sem nenhuma qualificação, quando mais de 95% dos ‘líderes’ são membros do partido, decisões fundamentais são tomadas por membros de comitês do partido e o pessoal da Comissão Militar Central é 100% igual ao da Comissão Militar Central do Partido Comunista. O governo chinês governa ou apenas aplica as decisões tomadas pelo partido? É correto aproximar o ‘governo’ chinês de outros, especialmente dos ocidentais, pelo simples uso da palavra ‘governo’, ou seria mais exato chamá-lo de ‘governo com características chinesas’ ou a ‘chefia da Máfia’?”, questionou o economista americano Carsten Holz, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, em artigo publicado em 2007 no Far Eastern Economic Review (aqui em português).
Nos próximos anos a economia da China vai ultrapassar a dos EUA em termos de paridade de poder de compra. “Mas o Ocidente entende esse país e seus governantes? Em que ponto, e por que canais, a liderança do Partido Comunista, com sua visão diferente sobre direitos humanos e dos cidadãos, vai afetar nossas escolhas sobre organizações políticas e liberdades políticas no Ocidente, como já afetou a pesquisa e o ensino acadêmicos?”, volta a questionar Holz.
O fato é que, para as grandes potências ocidentais, a China é um totalitarismo aceitável, assim como o é a Arábia Saudita. Hipocrisia bem exemplificada durante as Olimpíadas de Pequim (2008), um show de aparências que, ainda assim, não conseguiu esconder a verdadeira face de uma nação que por detrás dos avanços econômicos esconde repressão e desigualdade.
A mesma China que sorriu para o mundo através das belas imagens do esporte mantém fábricas onde se trabalha 100 horas semanais por salários ínfimos, patrocina o crescimento econômico em troca de um “socialismo de mercado” com características fascistas (onde as liberdades individuais são apenas idéias vagas), insiste em censurar a imprensa e impõe a países vizinhos, como o Tibet, sua vontade através da baioneta.