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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mais homofobia

Vale a pena ler dois artigos de Daniel Lopes do blog Amálgama sobre a intolerância religiosa contra os homossexuais no Brasil. No primeiro artigo, “Os evangélicos e a homofobia”, ele trata sobre a ação do lobby evangélico no Congresso Nacional contra leis que garantem direitos civis aos homossexuais. O segundo artigo, “Mais sobre os evangélicos e a homofobia”, ele retrata a reação deste grupo religioso às críticas contra sua atuação no âmbito político.

Tratei deste tema recentemente em uma série de artigos denunciando a homofobia na Câmara Municipal de Campo Grande por meio de oposição sistemática de representantes das igrejas evangélica e católica à concessão do título de utilidade pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul. Confira os artigos nos links a seguir.

- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia

Pelos bigodes do Sarney

Em sua carta de despedida Mino Carta expõe em algumas linhas seu cansaço diante do Brasil e, ao abordar os desmandos do poder político aqui na terrinha, refere-se da seguinte forma a José Sarney: “...senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos.”.

Marcelo Tas, por sua vez, descreve o senador de forma crua e direta: “Ele está no poder há exatos 54 anos. Deu ao Brasil a maior taxa de inflação do mundo. Voraz como uma cobra caninana, repartiu com a escória política verde-amarela o maior lote de canais de rádio e TV da história. Matreiramente, montou um império de comunicação no Maranhão, onde atingiu status de semi-deus imortal (lá, até sua tumba já foi construída com dinheiro público!). Com a morte de Tancredo, chegou à Presidência da República. Depois, diante de queda moral vertiginosa, teve a cara-de-pau de criar domicílio falso no Amapá para poder continuar aboletado no carguinho de senador em Brasília.”.

Finalmente, Paulo Bicarato lista o culto “as personalidades” no Maranhão dos Sarney.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O BID e as novelas da Globo

Três economistas vinculados ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) descobriram que as novelas da Rede Globo de Televisão ajudam a moldar as idéias das mulheres brasileiras sobre divórcio e filhos de maneira crítica. A descoberta está em dois estudos divulgados na sexta-feira (30/1): "Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil" e "Televisão e Divórcio: Evidências de Novelas Brasileiras" (ver aqui).

Os economistas analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999, nos dois horários de maior audiência: 19 e 20 horas. Sessenta e dois por cento das principais personagens femininas não tinham filhos e 21% tinham apenas um filho. Vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infiéis a seus parceiros. Os enredos das novelas com freqüência incluem críticas a valores tradicionais.

Utilizando sofisticados testes econométricos com resultados estatísticos consistentes, dados demográficos, informações sobre a expansão da cobertura da televisão e sobre o conteúdo das novelas da Globo, os estudos concluíram que a redução das taxas de fertilidade foi maior em anos imediatamente seguintes à exibição de novelas que incluíam casos de ascensão social, e para mulheres com idades mais próximas da idade da protagonista feminina da novela. Concluíram também que "quando a protagonista feminina de uma novela era divorciada ou não era casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto percentual."

As novelas da Globo talvez constituam um dos objetos mais estudados nas dissertações e teses de mestrado e doutorado nas dezenas de cursos de pós-graduação em comunicação que funcionam no país. A relação das novelas com o comportamento da audiência brasileira tem sido estudada há décadas. Não só no que se refere à fertilidade e o comportamento em relação ao casamento, mas, por exemplo, em relação à política.

Os estudos dos economistas do BID, no entanto, certamente vão ajudar a legitimar os resultados que já são conhecidos, faz tempo, dos pesquisadores brasileiros.

Dica pinçada do blog Jornal de Debates de Venício A. de Lima

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Crianças adultas

"O teu filho não é teu filho, é filho do seu tempo" – Confúcio

O desenhista Mauricio de Souza levantou uma questão interessante neste final de semana, em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja. Ele explica os motivos que o levaram a lançar uma versão “adolescente” de sua mais conhecida personagem, Mônica, cujas vendas atingiram o dobro do gibi da “Mônica criança”. Segundo Maurício, nos últimos cinqüenta anos houve uma “mudança extraordinária” no público da revista.

Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos sete. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangas japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu.”, afirmou.

A infância encolheu. É um conceito interessante e assustador, ao mesmo tempo. Maurício de Souza não vê nenhum problema nesta “mutação” que transforma crianças em adolescentes e adolescentes em adultos. “Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado. A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo”, opinou.

Apesar de Maurício de Souza se referir ao tema sob o contexto do gibi publicado por sua empresa, é possível estender o debate para outras mídias que, da mesma forma, podem dirigidas a um público infanto-juvenil, em especial a tevê.

Psicóloga Infantil e Psicopedagoga, Arina Isabel das Chagas sustenta que a o amadurecimento das crianças depende do contexto social em que vivem. “Os jovens europeus e americanos são muito mais estimulados à leitura em comparação com os brasileiros”, aponta.

Os estímulos constantes, a cultura da competição e as novas formatações familiares são fatores apontados como motores deste desenvolvimento acelerado. “As mães que se descobrem na sua profissão estimulam a independência dos seus filhos que vão amadurecer mais rápido. Atingem mais cedo a puberdade. Inicialmente ocorrem as transformações físicas, forçando esses jovens a uma maturidade emocional”, afirma Chagas no artigo “Por que os jovens amadurecem mais cedo nos dias de hoje?”.

Para a doutora em Psicologia e coordenadora do Núcleo de Análise de Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lídia Weber, é possível traçar um paralelo entre o que acontece com as crianças hoje em dia e o que ocorreria com elas durante a Idade Média, quando eram tratadas como “mini-adultos imperfeitos”.

Chagas também reconhece nesta “nova infância” resquícios de outros tempos: “Nos séculos passados, jovens de 10 a 12 anos já trabalhavam, com 15 anos iam para a guerra. Etapas eram puladas até porque a expectativa de vida era menor na época. Tanto tempo se passou e a estória se repete nos casos do trabalho infantil; crianças que trabalham nas minas de carvão ou nas lavouras de cana de açúcar. Infelizmente são exemplos de um amadurecimento mais precoce”, afirma.

A Mídia

Mas até que ponto a mídia deve ser responsabilizada por esta mudança de comportamento por parte das crianças?

Na reportagem “Crianças assumem responsabilidades mais cedo”, publicada pelo jornal Paraná Online em julho de 2008, Weber sustenta que a mídia tem um papel importante no amadurecimento precoce de crianças e aponta os programas infantis e danças como modelos sexualizados que influenciam muito a criança, inclusive na sexualidade. “A pressão da mídia está fazendo com que a adolescência seja antecipada. Até a menarca (primeira menstruação) está sendo antecipada. A mídia influencia até na maneira da criança se vestir, com traços adultos, como minissaias e sapatos com salto”, avalia.

Na entrevista concedida à revista Veja, Maurício de Souza discorda. Diz que “os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade”. Para o desenhista, “Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica”. Para reforçar seu ponto de vista, sustenta que a linha argumentativa do gibi segue o que ocorre na sociedade: “Nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de cinco anos faz isso por ele”.

Em 1998 o jornal Folha de S. Paulo promoveu um debate sobre a violência na TV e educação. Na oportunidade, a educadora Heloísa D. Penteado (então professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP), disse que "a tevê está, em qualquer sociedade, a serviço daquele modelo de sociedade” e que “como toda instituição reflete contradições dessa sociedade". No contraponto, Ciro de Figueiredo, então presidente do Grupo-Associação de Escolas Particulares, defendeu o ponto de vista segundo o qual: "Ela (a tevê) não transmite o mundo, fabrica mundos, passa a ser a própria realidade e por isso o processo crítico da tevê deve estar presente em todos os setores da sociedade, principalmente na escola e na família".

Segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as novelas brasileiras ajudaram a moldar as idéias das mulheres sobre divórcio e filhos de maneira crítica. Se os folhetins eletrônicos têm o poder de influenciar o comportamento de adultos, outras mídias não teriam a mesma ação sobre crianças e adolescentes?

Diante deste conflito de leituras relativas ao poder da mídia sobre a formação da criança, a grande dúvida é que limites devem ser impostos pelos pais no intuito de permitir que seus filhos vivenciem a infância de forma saudável? Há limites?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Livro conta a saga do povo palestino através da história de herói da resistência

Em um campo de refugiados perto de Beirute, o velho Yunis encontra-se em coma profundo. Khalil, médico e filho espiritual do doente, recusa-se a aceitar o fato de que talvez ele nunca volte a consciência e mantém-se ao lado dele, contando-lhe a sua própria história, que nada mais é que a saga do povo palestino. Quando jovem, Yunis casou-se com Nahila, uma moça que se torna cidadã israelense e fica na Galiléia, enquanto ele envolvido na Resistência, vive no campo de refugiados de Chatila, no Líbano. Yunis tinha de atravessar a fronteira clandestinamente para encontrar-se com sua esposa.

Esta é a história do livro Porta do Sol, da Editora Record. Valendo-se de histórias contadas no campo de refugiados, o autor Elias Khoury entrelaça à vida de Yunis aos muitos fatos importantes aconteceram no Oriente Médio: a Diáspora, o aperto de mãos de Arafat e Rabin em Washington, a invasão israelense ao Líbano e o massacre de Sabra e Chatila.

Leia abaixo trecho do primeiro capítulo do livro.

PARTE I
Hospital Galiléia

Umm-Hassan morreu.

Vi as pessoas correndo nos becos do campo e ouvi o pranto. As pessoas saíam de suas casas, agachavam-se para catar suas lágrimas e corriam.

Nabila, a esposa de Mahmud Alqássimi, que foi a nossa mãe, morreu. Costumávamos chamá-la de "nossa mãe" porque todos que nasceram no campo Chatila haviam caído dos úteros de suas mães diretamente nas mãos dela.

Eu também caí nas mãos dela, e no dia em que ela morreu, corri.

Umm-Hassan veio de Kweiket, seu vilarejo na Galiléia, para ser a única parteira do campo Chatila - uma mulher sem idade e sem filhos. Eu a conheci sempre velha; ombros curvados, rosto coberto de rugas e carquilhas: olhos grandes brilhando num quadrado branco e um xale branco cobrindo-lhe o cabelo branco.

Saná, sua vizinha, mulher de Karim Aljachi, o vendedor de knefe,* disse que Umm-Hassan passara por ela na noite anterior e lhe dissera que a morte chegaria.

"Ouvi sua voz, minha filha, a morte sussurra e tem a voz baixa."

Falou com seu sotaque beduíno para contar a Saná sobre o chamado da morte.

"A voz me chegou de manhã e disse: 'esteja pronta'."

"Fez as recomendações de como devia ser amortalhada."

"Pegou-me pela mão", disse Saná, "e levou-me para sua casa, abriu o guarda-roupa de madeira marrom e me mostrou a mortalha de seda branca; contou-me que tomaria banho antes de dormir. 'Assim morro pura, e não quero que ninguém me lave a não ser você.'"

UMM-HASSAN morreu.

Todo mundo sabia que a manhã dessa segunda-feira, 20 de outubro de 1995, era a data do encontro de Nabila, filha de Fátima, com a morte.

Todos acordaram e esperaram. Ninguém, porém, teve coragem de ir à sua casa para certificar-se de sua morte, pois Umm-Hassan avisara a todos, e todos acreditaram nela.

Apenas eu fui surpreendido.

Fiquei com você até as onze horas da noite; depois, exausto, fui para meu quarto e dormi. A noite do campo dormia; ninguém me avisou.
Mas as pessoas sabiam.

Não há ninguém que não acreditasse em Umm-Hassan, pois ela só falava a verdade.

Não foi ela a única que chorou na manhã de 5 de junho de 1967, enquanto todos dançavam nas ruas preparando-se para o retorno à Palestina? Ela chorou. Disse a todos com quem se encontrara que decidira vestir-se de luto. Todos riram dela e disseram que perdera o juízo. Durante os seis dias de guerra* não abriu as janelas de sua casa. No sétimo dia, saiu para enxugar as lágrimas dos outros. Disse que sabia que a Palestina não voltaria antes de todos nós morrermos.

Durante seus longos anos, Umm-Hassan enterrou seus quatro filhos, um após o outro. Chegavam carregados numa tábua com as roupas ensangüentadas. Sobrou-lhe apenas um filho chamado Naji, que vivia na América. Naji não é seu filho verdadeiro, mas é seu filho. Catou-o debaixo de uma oliveira no caminho de Kabri-Tarchiha, amamentou-o de seus secos seios, depois o entregou à sua mãe verdadeira no vilarejo de Qana, no Líbano.

Hoje morreu Umm-Hassan.

Ninguém teve coragem de entrar na sua casa. Mais de vinte mulheres aglomeraram-se na frente da casa e aguardaram. Saná chegou e bateu à porta; ninguém atendeu. Empurrou-a, abriu; correu até o quarto e viu Umm-Hassan dormindo; sua cabeça coberta pelo lenço branco. Saná aproximou-se, tocou seus ombros, a frialdade do seu corpo passou para as palmas da mulher do vendedor do knefe, que gritou. As mulheres então entraram e o choro se levantou, as pessoas correram.

Eu também queria correr com os que correram e entrar com os que entraram para ver Umm-Hassan dormir em sua cama para sempre, respirando o aroma de azeitona que exalava de sua pequena casa.

Mas não chorei.

Há três meses sinto-me incapaz de me emocionar. Apenas este homem suspenso sobre seu leito me faz sentir a tremura das coisas. Há três meses está deitado sobre esta cama no Hospital Galiléia, onde trabalho como médico, ou onde faço de conta que sou médico. Sento-me ao seu lado e tento. Ele está morto ou vivo? Eu não sei. Eu o estou ajudando ou fazendo-o sofrer? Amo-o ou o odeio? Conto-lhe histórias ou o escuto?
Faz três meses que estou no seu quarto.

E hoje, Umm-Hassan morreu, e quero que ele saiba, mas ele não ouve; quero que venha comigo para o funeral, mas ele não se levanta.

Disseram que estava em coma.

Um derrame cerebral que causou dano irreversível. Um homem deitado na minha frente, e eu aqui estou, sem saber o que fazer. Apenas tento não deixá-lo apodrecer vivo, pois estou certo de que ele está dormindo, não morto.

Mas que diferença faz?

Será que é verdade o que me dizia Umm-Hassan, que alguém dormindo é igual a um morto - que a alma abandona o corpo de quem dorme e a ele retorna quando acorda, enquanto a alma do morto parte porém não volta?

Onde estará a alma de Yunis, filho de Ibrahim, filho de Sleiman Alassadi?

Terá ido para muito longe, ou estará pairando sobre nós neste quarto de hospital, pedindo me para não abandonar o lugar, porque o homem está imerso em distantes trevas, temendo o silêncio?

Juro que não sei.

Vítima não, responsável

O texto abaixo é uma tradução livre da belíssima reflexão feita por Yoani Sánchez em seu blog Generarión Y, intitulado Vítima não, responsável. Sua coragem frente ao autoritarismo em Cuba tem se refletido em todo o mundo. Recomendo o blog.

“Poderia passar o dia assustada, escondendo-me destes homens lá em baixo. Encheria páginas com o custo pessoal que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que foram “avisados” de que sou uma pessoa perigosa.

Bastaria decidir e cada um dos meus textos seria uma denúncia ou um longo dedo acusador para aqueles que buscam culpados. Mas acontece que eu não sou uma vítima, sou responsável.

Estou ciente de que me calei, que permiti a alguns o direito de governar minha ilha como se fosse uma fazenda. Fingi e aceitei que outros tomassem por mim as decisões que nos cabiam a todos, me escondia por detrás do fato de ser muito jovem, muito frágil. Sou responsável por ter colocado a máscara, por ter usado meu filho e minha família como argumento para não me atrever. Aplaudi – como quase todos – e deixei meu país quando estava farta, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo.

Também carrego o peso de ter me deixado levar – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita. Tolerei que me incutissem a paranóia e em minha adolescência uma balsa no meio do mar foi um desejo frequentemente acariciado.

No entanto, como não me sinto vítima, ergo um pouco a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem por toda a parte. Não há nada mais paralisante que uma panturrilha de mulher quando o sol bate em meio à calçada. Como também não tenho vocação para mártir, tento não desmanchar o sorriso, visto que a gargalhada é uma pedra dura para os dentes dos autoritários. Assim prossigo em minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em apenas um lamento. Afinal de contas, tudo isso que vivo hoje tem sido produto do meu silêncio, fruto direto da minha passividade anterior.”

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Historiador de origem judaica faz crítica ao movimento sionista

O historiador americano de origem judaica Norman Finkelstein faz uma crítica contundente à estratégia e aos argumentos do sionismo e também ataca fortemente a política israelense atual no livro "Imagem e Realidade no Conflito Israel-Palestina".

No trecho que pode ser lido abaixo, do primeiro capítulo do livro, há uma definição do empreendimento sionista e de três tendências - sionismo político, sionismo trabalhista e sionismo cultural - que estavam comprometidas com a exigência de um Estado de maioria judaica.

Orientações Sionistas - Teoria e prática do nacionalismo judaico

Gorny começa identificando o "consenso ideológico" do qual brotou a maior parte do pensamento sionista, se não mesmo toda a sua gama. Um dos elementos deste consenso, frisa ele ao longo de seu estudo, estava no centro da crença sionista e se revelou o principal obstáculo para qualquer reconciliação com os árabes - a saber, que a

Palestina deveria um dia abrigar uma maioria judaica. No interior do consenso ideológico sionista coexistiam três tendências relativamente distintas - o sionismo político, o sionismo trabalhista e o sionismo cultural. Todos estavam comprometidos com a exigência de uma maioria judaica, mas não exatamente pelas mesmas razões.

A pedra de toque do ideal liberal da França revolucionária estava na convicção de que era possível e desejável construir uma ordem social racional e justa com base em valores políticos compartilhados, vale dizer, democráticos. Deste modo, o Estado-nação foi concebido acima de tudo como uma forma consensual de relacionamento, sendo o cidadão sua unidade irredutível e seu alicerce. Originando-se numa reação do período pós-revolucionário francês ao racionalismo e ao liberalismo do Iluminismo, ponto de partida do sionismo político era a suposta falência do ideal democrático.

Os nacionalistas românticos sustentavam que vínculos mais profundos da mesma forma "natural" uniam certos indivíduos e excluíam outros. Idealmente, concluíam, cada uma dessas comunidades organicamente constituídas deveria dotar-se de um Estado independente. Tendo identificado o pensamento de Theodor Herzl, o fundador do moderno sionismo, nessas "fontes alemãs", Hans Kohn, provavelmente a mais eminente autoridade em nacionalismo moderno (ele próprio um sionista a certa altura), observa:

"Segundo a teoria alemã, as pessoas de ascendência comum (...) deviam formar um Estado comum. O pangermanismo baseava-se na idéia de que todas as pessoas de raça, sangue e ascendência alemães, onde quer que vivessem e qualquer que fosse o Estado a que pertencessem, deviam lealdade primeiro que tudo à Alemanha e deveriam tornar-se cidadãos do Estado alemão, sua verdadeira pátria. Eles e mesmo seus pais e antepassados podiam ter crescido debaixo de céus "estrangeiros" ou em ambientes "alienígenas", mas sua "realidade" interior fundamental continuava sendo alemã."

Pressupostos análogos imbuíam a característica abordagem sionista da questão judaica. Ao longo da diáspora, sustentavam seus participantes, os judeus constituíam uma presença "alienígena" em Estados "pertencentes" a outras nacionalidades, numericamente preponderantes. O anti-semitismo era o impulso natural de um todo orgânico "infectado" por um organismo "estrangeiro" (ou por um corpo "estrangeiro" por demais presente).

Com efeito, a análise sionista da questão judaica replicava o raciocínio do anti-semitismo, que invocava o mesmo argumento para justificar o ódio aos judeus. Na realidade, a receita que propunha para o problema judaico também estava inscrita na lógica do anti-semitismo. O sionismo político não pretendia combater o anti-semitismo - que na melhor das hipóteses era encarado como um empreendimento quixotesco -, mas chegar a um modus vivendi com ele. Propunha que a nação judaica resolvesse a questão judaica se (re)estabelecendo num Estado que a ela "pertencesse".

Para isso, os judeus teriam de se constituir em algum lugar como a maioria - pois não decorria a situação de ausência de Estado dos judeus precisamente do fato de que, onde quer que se encontrassem na diáspora, formavam uma minoria numérica? A condição de maioria, conseqüentemente, ratificaria o direito constitucional dos judeus a um Estado. Assim é que o dirigente revisionista Vladimir Jabotinsky, bem-situado no contexto do consenso ideológico sionista (p. 165; todas as páginas mencionadas são do livro de Gorny), declarou que "a criação de uma maioria judaica (...) era o objetivo fundamental do sionismo", já que "a expressão 'Estado judaico' (...) significa maioria judaica", e a Palestina "haverá de tornar-se um país judeu no momento em que tiver uma maioria judaica" (p. 169, 170-1, 233).

Para o sionismo trabalhista, a questão judaica não era apenas a ausência de um Estado, mas a estrutura de classe da nação judaica, que se havia tornado desequilibrada e deformada ao longo da longa dispersão: o Galut (exílio) havia criado um excesso de comerciantes, pequenos negociantes marginais e Luftsmenschen judeus, e um déficit de trabalhadores judeus. O sionismo tinha em parte como missão lançar as bases de um Estado sadio, reconstituindo a classe trabalhadora judaica. Como os interesses desta classe (e aqui o sionismo trabalhista evidentemente tomava de empréstimo uma página de Marx, adaptando-a para suas finalidades) exigiam um Estado judaico socialista, era esta a única verdadeira solução para o problema judaico. Deste modo, o sionismo trabalhista representava menos uma alternativa do que um complemento ao sionismo político. Em termos ideais, a luta de classes e o desenvolvimento econômico haveriam de desdobrar-se num campo purificado de elementos "alienígenas". Nas palavras de Ben-Gurion:

"O direito à existência nacional independente, à autonomia nacional, que nenhuma pessoa razoável poderia considerar conflitante com a solidariedade entre os povos, significa acima de tudo: existência nacional independente com base numa economia nacional independente (p. 137-8)."

O sionismo trabalhista imbuía a exigência de uma minoria judaica de um duplo significado: primeiro, ela ratificaria o direito dos judeus de reivindicar o Estado e, segundo, assinalaria seu direito de alterar radicalmente o equilíbrio demográfico na Palestina, abrindo caminho para a concentração territorial da nação judaica. Para citar novamente Ben-Gurion: "A maioria é apenas uma etapa em nosso caminho,embora uma etapa importante e decisiva no sentido político. A partir dela, podemos prosseguir tranqüilamente confiantes em nossas atividades e concentrar as massas de nosso povo neste país e em suas imediações" (p. 216; o itálico é nosso).

De maneira geral, a exigência de uma maioria judaica feita pelo movimento sionista escorava-se num conjunto de pressuposições que iam de encontro ao ideal liberal. Já o sionismo cultural não negava explicitamente a conveniência (ou viabilidade) de uma organização política democrática. Sua exigência de uma maioria judaica não representava tanto uma rejeição categórica do liberalismo, mas uma solução para certos limites nele supostamente contidos, especialmente no terreno da cultura.

Os sionistas culturais não queriam resolver "o problema dos judeus", mas "o problema do judaísmo" no mundo moderno. A seus olhos, a sobrevivência do judaísmo e do povo judeu era menos ameaçada pelo antisemitismo do que por uma civilização cada vez mais secularizada que os transformava num anacronismo. O verdadeiro problema não estava na fria rejeição dos gentios, e sim em seu abraço tentador. A tarefa mais urgente do sionismo, assim, era elaborar uma Weltanschauung de acordo com o mundo contemporâneo e ainda assim trazendo a inconfundível marca do resplandecente legado do povo judeu. A sobrevivência da nação judaica seria determinada pelo sucesso ou o fracasso desta empreitada.

Esta nova síntese nacional não poderia efetivar-se, entretanto, enquanto o povo judeu permanecesse dispersado na diáspora. Ela exigia um "centro espiritual" capaz de concentrar e unificar as energias da nação judaica e, em última análise, servir-lhe de força centrípeta. Para criar este centro, os judeus precisavam constituir-se como maioria numérica em algum Estado, pois as instituições culturais cruciais de qualquer sociedade estão subordinadas ao Estado, que sempre traz a marca da nação majoritária. Mesmo nos Estados mais democráticos, a vida cultural da minoria só pode ser "tolhida e confinada", na formulação do eminente teórico do sionismo cultural Ahad Ha'am (p. 102-3).

O sionismo cultural encarava portanto a maioria judaica como conditio sine qua non não de um Estado dos judeus, mas do livre renascimento espiritual da nação judaica. A Palestina, com sua maioria judaica, acabaria servindo como ponto de referência espiritual para os judeus de todo o mundo; não seria, no entanto, um Estado ao qual todos os judeus teriam de vincular-se politicamente. Ainda assim, o caráter da exigência de uma maioria judaica era definido, em termos práticos, pelos setores hegemônicos do movimento sionista. Para eles, a maioria judaica e o Estado judaico estavam indissoluvelmente vinculados: a maioria judaica eram os meios, e um Estado constitucionalmente vinculado aos judeus de todo o mundo, o fim.

A exaustiva e meticulosa análise dos registros documentais empreendida por Gorny demonstra que, não obstante toda a sua flexibilidade tática, a liderança sionista nunca recuou em seu apego à idéia de um Estado da nação judaica. O que esta liderança oferecia à população árabe da Palestina era, na melhor das hipóteses, um conjunto de salvaguardas institucionais no sentido de que seus direitos "civis" não seriam violados após o estabelecimento do Estado judaico; todavia estas garantias para a futura minoria árabe não impediam - na realidade, pressupunham - que, em princípio, o pretendido Estado pertenceria ao povo judeu.

Consideremos, por exemplo, as fórmulas de "compromisso" apresentadas pelo movimento sionista após os distúrbios árabes de 1929, quando as perspectivas do empreendimento sionista encontravam-se em seu ponto mais baixo até então. Weizmann propôs o princípio da paridade - vale dizer, igualdade total na representação administrativa dos dois povos -, mas sua intenção (nas palavras de Gorny) era "assegurar o status civil dos árabes" no interior de um Estado que seria de "propriedade" judaica (p.206). Da mesma forma, o "compromisso" então favorecido por Ben-Gurion não era um Estado binacional, mas um regime binacional, no qual (na formulação de Gorny) "o povo judeu teria direitos de propriedade sobre a Palestina e a comunidade árabe teria o direito de nela residir" (p. 212).10 Finalmente, Jabotinsky prometeu aos habitantes árabes da Palestina direitos plenos e iguais como entidade nacional, de acordo com as melhores tradições do pensamento socialista austro-húngaro, mas na questão do princípio de uma maioria judaica/Estado judaico ele não aceitava compromissos (p. 233-4).

O apego da liderança sionista ao princípio de um Estado judaico da nação judaica encontrou expressão concreta e inequívoca em sua insistência em que os judeus da diáspora desfrutassem de situação privilegiada em relação ao futuro Estado. Ben-Gurion, por exemplo, negava que a existência de um Estado judaico significasse necessariamente a dominação da minoria (árabe) (p. 306-7). A minoria poderia continuar desfrutando de plena igualdade civil e nacional, além de autonomia na educação, na cultura e na religião; com efeito, um membro da minoria poderia até mesmo ser eleito presidente ou primeiro-ministro do Estado. É verdade que a maioria judaica determinaria a "imagem" do Estado, mas isso também era (ou podia ser) um fato em todos os Estados democráticos. Todavia o que haveria de distinguir o Estado judaico, em sua opinião, seria sua orientação para todo o povo judeu: "O Estado não existirá apenas para seus habitantes (...) mas para atrair massas de judeus da diáspora, para reuni-los e enraizá-los em sua pátria."

Identificamos até aqui as correntes do sionismo que se encaixam no consenso ideológico sionista mencionado por Gorny. Ele também dedica considerável espaço aos elementos do movimento sionista que não se enquadravam no consenso ideológico mas ainda assim estavam comprometidos com alguma versão do sionismo.

De maneira geral, o que atraía esses dissidentes para o sionismo era sua dimensão cultural; politicamente, eles eram favoráveis a uma solução binacional do conflito em torno da Palestina, na qual fosse reconhecida "a total igualdade dos direitos políticos dos dois povos" (p. 119). O que nos interessa sobretudo aqui, entretanto, não são seus programas e perspectivas em si mesmos (que foram em grande número, todos eles sofrendo cruciais revisões ao longo do tempo). Pois o fato é que, embora os círculos sionistas dissidentes (exemplos: o Brit-Shalom, o Ihud) pudessem ter em suas fileiras alguns dos mais eminentes membros do movimento, entre eles o respeitado sociólogo Arthur Ruppin, primeiro presidente da Universidade Hebraica Judah Magnes, e o renomado filósofo Martin Buber, não deixavam de ser numericamente fracos e politicamente marginais. Nosso interesse se volta antes para sua crítica - às vezes implícita, com maior freqüência explicíta - das correntes centrais do sionismo. Esta crítica é digna de nota porque era ao mesmo tempo interna no movimento sionista, não podendo, assim, ser facilmente descartada, e também excepcionalmente convincente e incisiva, sob todos os aspectos. Na verdade, mostra-se tão pertinente hoje quanto no momento em que era feita.

Os dissidentes sionistas negavam que o êxito do projeto sionista - ou pelo menos tal como o definiam - dependesse do fato de os judeus se constituírem em maioria na Palestina. Eles não se opunham em princípio a que os judeus se tornassem em dado momento o elemento numericamente preponderante; o que não aceitavam era o significado atribuído à idéia de uma maioria judaica por seus adversários no movimento sionista. Os dissidentes argumentavam que por trás da exigência de uma maioria judaica se escondia a intenção de estabelecer uma alegação de direitos superiores sobre o pretendido Estado, conferindo aos judeus uma "vantagem em matéria de direitos" e presumindo a dominação e a supressão dos árabes da Palestina (p. 120, 145, 284). Hugo Bergmann, do Brit-Shalom, resumiu muito bem as pressuposições das correntes centrais do sionismo:

"A contradição entre os perfis políticos do Brit-Shalom e de seus opositores não se baseia apenas em nossa posição a respeito dos árabes. É algo muito mais fundamental e profundamente enraizado. Nossas convicções políticas decorrem das percepções do judaísmo. Queremos que a Palestina seja nossa para que as crenças morais e políticas do judaísmo deixem sua marca no modo de vida deste país, e para que aqui possamos pôr em prática a mesma fé que se manteve viva em nossos corações durante dois mil anos. E nossos oponentes têm pontos de vista diferentes. Quando falam da Palestina, de nosso país, estão se referindo ao "nosso país", e não ao "país deles". Este ponto de vista foi derivado da Europa em seu período de declínio. Baseia-se no conceito de um Estado que seja propriedade de um povo. (...) Desse modo, vários Estados europeus atuais consideram que a existência de um Estado significa que determinado povo, entre os povos que nele residem, deve desfrutar de direitos prioritários. (...) Eles justificam esta injustiça invocando o sagrado egoísmo do Estado" (p. 122-3; itálico no original).

Bergmann também criticava o conceito de "povo do país", que segundo ele "atribui direitos prioritários a um povo em detrimento de outro, como se um deles fosse o filho natural, e o outro, o enteado" (p. 123). Com efeito, o conceito contradizia o princípio democrático da cidadania.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Fidel traidor?

O ex-guerrilheiro cubano Daniel Alarcón Ramírez, o "Benigno", acusa Fidel Castro de ter traído Che Guevara a mando de Moscou. Alarcón Ramirez diz que a morte de Che resultou de uma conspiração urdida por Fidel e pela União Soviética.

Best Blogs Brazil 2008

Confira os resultados do Best Blogs Brazil de 2008.

Melhor blog de Artes e cultura: Amálgama
Melhor blog de Automóveis: Velocidade
Melhor blog de Ciências: Brontossauros em meu jardim
Melhor blog de Cinema, música e TV: Poltrona
Melhor blog Corporativo: Papo de empreendedor
Melhor blog de Culinária: Homem na cozinha
Melhor blog de Design: Bem Legaus
Melhor blog de Educação: Rastro de Carbono
Melhor blog de Entretenimento: Sedentario & Hiperativo
Melhor blog de Esporte: Blog do Juca
Melhor blog de Games: Continue
Melhor blog de GLBT: Papel Pop
Melhor blog de Humor: Kibe Loco
Melhor blog Jurídico: Direito e trabalho
Melhor Metablog: Twitter Brasil
Melhor blog de Negócios e finanças: Dinheirama
Melhor blog de Pessoal e cotidiano: Planejando meu casamento
Melhor blog de Política: Pedro Doria
Melhor blog de Publicidade e Comunicação: Brainstorm #9
Melhor blog de Quadrinhos: Malvados
Melhor blog de Religião e esoterismo: Isso é bizarro
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Melhor blog de Universo Masculino: Papo de homem
Melhor Design: Sedentário & Hiperativo
Melhor Podcast: Nerdcast
Melhor Blog: Blog do Tas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

E agora?

Adriana, poeta maravilhosa e amiga blogueira me pergunta:

Gostaria de saber qual a sua visão a respeito da saída das tropas de Israel de Gaza e o que isso representa efetivamente em relação ao conflito. Prezo muito a sua opinião, principalmente, depois de tantas reportagens suas a respeito. Um grande abraço.”.

Respondo.

Sem querer ser pessimista, a saída das tropas israelenses de Gaza não significa absolutamente nada no contexto geral.

Os 1,5 milhão de palestinos de Gaza, sob o domínio religioso e autocrático do Hamas, continua isolado por Israel, que controla suas fronteiras terrestre, marítima e aérea sem permitir que ninguém entre ou saia da região e os cerca de três milhões de palestinos da Cijordânia, sob o governo democrático da Autoridade Palestina, continuam na pobreza, esmagados em um labirinto territorial mesclado por bolsões de riqueza, que são os assentamentos israelenses na região.

Nada vai mudar enquanto Israel não sair dos territórios ocupados e tratar (junto com o resto do mundo ocidental) os palestinos como um povo que necessita de uma nação (assim como os judeus precisavam de uma nação e a conquistaram na década de 40).

Ocorre que este não é o interesse de Israel. O que Israel quer, de fato, é tornar a vida dos palestinos nos territórios ocupados tão miserável, tão horrenda, que eles acabem optando por migrar para a Jordânia ou para o Egito, o que seria mais uma catástrofe humana sobre este povo.

É lamentável, mas a solução está longe de ser encontrada, pois Israel conta com o apoio irrestrito dos Estados Unidos que já usou seu direito de veto (outro absurdo) 40 vezes em favor de Israel quando as Nações Unidas condenaram o país por inúmeras violações do direito internacional, em especial a instalação de colônias permanentes nos territórios palestinos ocupados.

Democracia na web

A reportagem “Internet será interface de Obama com os americanos”, publicada ontem no portal Folha Online, reforça a tendência do uso da internet como ferramenta para o aprimoramento da democracia ao citar as experiências iniciais do Governo Obama para ouvir a população por meio da web.

Na página da transição de Obama, Change.gov, os internautas podem oferecer sugestões para as áreas de atuação do governo, como economia, educação e saúde. De acordo com o site, “as melhores idéias serão encaminhadas para o livro dos cidadãos que será entregue ao presidente Obama depois do juramento” (ocorrido ontem).

Apesar de tímidos, estes são conceitos que podem fortalecer a idéia da democracia direta.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura
- Democracia participativa
- Brasileiro está mais familiarizado com governo eletrônico
- Obama incentiva a democracia participativa?

Eles eram mais livres

No rastro da lamentável aprovação da "Proposta 8" pela população da Califórnia, no último dia 4, que baniu o casamento homossexual naquele estado norte-americano, a jornalista Giovana Sanchez, do G1, publicou ontem interessante reportagem intitulada “Motivo de polêmica eleitoral nos EUA, união gay era aceita na Antigüidade”, na qual demonstra que a relação entre pessoas do mesmo sexo era legítima na Grécia e em Roma e que a condenação da prática teve início nas religiões monoteístas e estados eclesiásticos. Vale a leitura.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama

O 44º presidente estadunidense, Barack Hussein Obama, tomou posse hoje concretizando de forma simbólica o “sonho” de Martin Luther King que, em 1963, falava do dia em que os seus filhos não seriam julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.

Com um índice de confiança popular que atinge os 79% - o mais alto que um presidente americano exibiu em sua posse nos últimos 30 anos – Obama elegeu-se com o discurso da mudança, da modernidade e com a promessa de um olhar menos belicista para o futuro.

No entanto, após o sonho e a festa, o mundo deve aguardar pra enxergar o que, de fato, há por detrás do sorriso do presidente.

O correspondente em Nova York do Guardian, Gary Younge, definiu bem as expectativas: “Como democrata característico, ele (Obama) encabeça um partido que em qualquer outro país ocidental seria considerado de direita em política externa, de centro em política econômica e de centro-esquerda em política social.

No Observatório da Imprensa, os mestres Alberto Dines e Luiz Weiss também apontam o caminho das pedras para entender o que virá depois dos holofotes. O primeiro afirma que “parte dos milagres já aconteceu” com “a escolha tranqüila de um negro para ocupar a Casa Branca” a partir do seguinte conceito: “a postulação do candidato democrata foi apresentada como fator de união, claramente pós-racial e pós-ideológica”.

O segundo, por sua vez, põe os confetes de volta ao saco: “A partir de hoje, 20 de janeiro de 2009, a mídia precisa julgar Barack Hussein Obama não mais pela singularidade de sua trajetória, nem tampouco pelos notáveis atributos de sua personalidade pública, mas pelo conteúdo de suas decisões como o governante mais poderoso do mundo”.

É esperar para ver.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama
- Esperança para nosso etanol?
- Entrada permitida
- Lula e Obama: a visão lá de fora
- Obama incentiva a democracia participativa?
- Obama e o biocombustível
- Obama, Lula e meu medo
- Dez propostas de Michael Moore para Obama

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Esquerda e Direita

Me sinto muito confortável com o pensamento de Mino Carta sobre esquerda e direita. Portanto, ao invés de elucubrar sobre o tema, repito aqui algumas de suas tiradas que mais me agradam a respeito do assunto.

“Há quem encha a boca, o papel, o ar, com palavras como esquerda e direita. Como dizia Raymundo Faoro, há países onde a dicotomia é menos abrupta, digamos assim, que no Brasil. Aqui ela se manifesta, e como. Mesmo assim, muitos se dizem de esquerda sem ser, por ignorância ou oportunismo. Também conviria definir com precisão o que direita significa. Há diferenças mais ou menos profundas entre um fascista e um conservador, entre um senhor de escravos (tem vários por aí), e um liberal reformista. Meu pai era um liberal (nada a ver com neoliberal) e foi preso pelos fascistas durante a guerra.”

“Não precisa ser de esquerda ou direita, basta ser crítico, democrático, consciente, ético. Quanto a mim, não hesito em me dizer de esquerda, sem que isso impeça meu apreço por pessoas que não concordam comigo.”

“O que Bobbio sustenta é a impossibilidade de se extinguir a eterna dicotomia: Deus e Diabo, luz e sombra, Bem e Mal, direita e esquerda. E enquanto houver desvalidos no mundo, haverá esquerda, ou seja, homens empenhados na busca da igualdade.”

“Fidel Castro liderou uma grande revolução popular, e por isso, foi de esquerda. E há muito de esquerda em vários dos seus comportamentos do seu governo. Mas a supressão de liberdades fundamentais é, na minha opinião, de direita.”

“Entendo que toda ditadura, mesmo com raízes à esquerda, acaba por tornar-se de direita.”

“Para mim, ser de esquerda implica um gênero de idealismo que, ao cabo, não se coaduna com totalitarismo e seus dogmas. O poder absoluto na prática é o mesmo do papa e das monarquias por direito divino, é o das sociedades leoninas, aquele de quem pretende encarnar a verdade definitiva e irrecorrível.”

“Ditaduras, mesmo nascidas à esquerda, descambam para a direita. É o que se dá quando liberdade e igualdade são aquelas impostas pelo ditador.”

“Igualdade tem como premissa a liberdade. Se falta esta, falta aquela. Para mim, ditaduras sempre acabam com perfil igual, ao menos na substância. Sim, está claro que o regime soviético proporcionou grandes avanços e sob o ditador Stálin foi um dos dois principais vencedores da Segunda Guerra Mundial. Também perpetrou monstruosas chacinas, perseguições de inaudita ferocidade, crimes hediondos. Stálin eliminou um a um seus inimigos internos e teve em Beria um verdugo implacável. Nada disso, no meu entendimento, é de esquerda.”

“Quando falo em igualdade, sonho idealmente com uma sociedade equilibrada, laica, republicana e democrática, justa na distribuição da riqueza e capaz de oferecer igualdade de oportunidade a todos. É quimera? É possível, é provável. Tal é, porém, um projeto ética e politicamente irrepreensível.”

“Sou de esquerda, está claro, mas coloco a ética na frente da ideologia. E prezo minha independência. Pois é, a ideologia: para muitos, substitui a religião. Veneram seus santos e aceitam seus dogmas. À direita e à esquerda.”

“Dizem que as ideologias estão no cemitério. É como se ninguém tivesse direito às suas idéias. Claro que certas ideologias, derrotadas na sua prática, morreram de morte morrida. Não faltarão outras, novas em folha.”

“Acho que antes da ideologia vem a ética. É dela que decorrem a busca da igualdade e o reconhecimento de que a liberdade por si só não basta, e exige as indispensáveis limitações da lei. É a ética que não nos permite viver em paz em um mundo e em uma sociedade desiguais. Não há consciência ética em quem aceita a miséria do semelhante como fato corriqueiro, normal, natural. Este, diria Norberto Bobbio, não é de esquerda.”

Pessoas que acreditam em coisas

Sensacional a crônica "Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas", de Alex Castro. Vale a leitura.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Objetores de Consciência



Jovens israelenses que se recusam a integrar as forças de ocupação do exército de Israel em Gaza e na Cijordânia, os chamados “shministim”, ainda estão presos. O grupo “Vozes judaicas pela paz” lançou em 18 de dezembro uma campanha pela libertação destes objetores de consciência. O abaixo-assinado para o governo israelense pode ser assinado aqui.

Protógenes sofreu atentado no Rio

“Comunico ao povo brasileiro e aos internautas que no dia 15 de janeiro de 2009, por volta das 15:00 hs, sofri o primeiro atentado quando dirigia automóvel deslocando do Jardim Botânico com destino a Niterói, ato contínuo, ainda no JB o radiador de água quente explodiu causando uma nuvem de fumaça muito grande e explosão do painel do veículo. Resultado sofri queimaduras de primeiro grau nos pés e lesões no corpo… Desejo ao Daniel Dantas e comparsas SAÚDE e PAZ, que a verdade se revelará…”

Extraído do site do delegado Protógenes Queiroz. Veja a íntegra do post.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Gaza: para ler e refletir IV

Para ajudar Israel, vamos dizer: não concordamos com sua política!, por Ilana Polistchuck
E por que não podemos escutar as vozes dos soldados israelenses que se recusam a lutar ou servir em territórios ocupados? Por que não podemos considerar que bombardear hospitais, casas, universidade para “caçar terroristas” é um delírio militar?

Entrevista com uma jovem palestina
O que se segue é a tradução de uma conversa de Idelber Avelar com B., 19 anos, palestina, residente em Jerusalém Oriental e estudante em Nablus (Palestina Ocupada). Tanto a publicação da conversa como a proteção à identidade de B. são feitas com sua autorização. A conversa aconteceu em inglês.

Visionário, Gilles Deleuze previu muito em 1978
No dia 07 de abril de 1978, no Le Monde, o filósofo Gilles Deleuze profeticamente escrevia: Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.

Mohammed Fares Al Majdalawi escreve de lá: Gaza está afundando num rio de sangue
Quero escrever sobre o sofrimento do meu povo e da minha família nestes dias de cerco contra a população de Gaza. Pelo menos 888 pessoas já foram assassinadas e mais de 3.700 feridas. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acusou o exército israelense de repetidamente recusar entrada a ambulâncias na região de Al Zeitoun na Cidade de Gaza. Como consequência, os feridos logo passam a ser os mortos, uma violação premeditada e deliberada dos direitos humanos.

Entrevista com Ilan Pappe
O historiador israelense no programa Milênio, da Globo News. Assista

E quem salvará Israel de Israel?
Uma a uma, caem por terra as justificativas que Israel ofereceu para essa sua mais recente guerra contra Gaza...

Carta ao embaixador israelense no Brasil
Permita-me fazer um reparo. O que acontece em Gaza, em Israel e na Cisjordânia não é uma guerra. O governo que o senhor representa está perpetrando um massacre....

MANIFESTAÇÕES

- Às ruas, mineiros! Quinta, dia 15/01, às 15 horas, na histórica Praça Afonso Arinos
- Ato pelo fim do massacre em Gaza, São Paulo, Sexta-feira, 16/01

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Desfaçatez e covardia

O jornalista Luiz Weis define com maestria no artigo Guernica em Gaza o sentimento de muita gente (como eu) que olha as manifestações pró-Israel que pupulam na imprensa - e do punho de alguns - de forma embasbacada.

Diz ele: “Há qualquer coisa de surrealista na matéria ‘Cobertura da imprensa desagrada a israelenses’, do enviado especial do Estado de S.Paulo, Gustavo Chacra, publicada na sexta-feira, 9. Um jornal israelense, relata o repórter, ‘chegou a chamar a imprensa internacional de mentirosa’ em matéria de primeira página. ‘Mentirosa’? Relatório da ONU divulgado na mesma sexta diz que 257 crianças palestinas morreram e 1.080 ficaram feridas nos 14 primeiros dias da ofensiva.

Da mesma forma fiquei chocado com o artigo O mantra da desproporcionalidade, assinado pelo jornalista e doutor em Filosofia gaúcho Luis Milman, onde ele só falta dizer que palestino bom é palestino morto. Milman dá um show de desfaçatez ao conduzir o artigo de forma a colocar os israelenses como vítimas e os palestinos como agressores, deixando de lado o bom senso e a história.

É a mesma visão distorcida apresentada por brasileiros residentes em Israel na reportagem Conflito em Gaza divide blogosfera, publicada no portal Último Segundo. A reportagem cita André Hamer, 26, que mora em Beer Sheva e garante que o ataque israelense contra uma escola da ONU - que deixou pelo menos 40 mortos - foi culpa do Hamas “O ataque foi em uma pobre escola da ONU na Faixa de Gaza e matou dezenas de inocentes (se é que esta informação, dada por fontes palestinas, é verdade e os mortos não são terroristas do Hamas), mas aí eu pergunto: o que os inocentes estavam fazendo lá? Quem neste mundo não sabe que Israel está fazendo uma incursão na Faixa de Gaza procurando terroristas do Hamas?”, questiona.

Eu ia responder, mas dada à tibieza do argumento prefiro deixar que os leitores reflitam.

A reportagem cita também Yair Mau, 26, para quem a “operação israelense em Gaza é necessária e justa”. Diz ele: “Estamos lutando contra terroristas, que não reconhecem o meu direito de viver neste país. Leio muito na mídia internacional sobre a desproporcionalidade da reação israelense. Desproporcional é a pressa que os países do mundo têm em condenar Israel por defender seus cidadãos e a resistência que têm em chamar o Hamas pelo seu verdadeiro nome: um grupo terrorista islâmico fundamentalista”.

Esquece de dizer que os palestinos também têm o direito de viver em seu próprio País.

A internet está repleta de reações do gênero, como se o direito de Israel existir (legítimo, é claro) desse o direito aos israelenses de impedir que os palestinos tenham o mesmo anseio.

Para saber, de fato, o que ocorre em Gaza

Para os que compreendem inglês: The Electronic Intifada
Em português: O Biscoito Fino e a Massa